O álbum de nove faixas que tornou Marvin Gaye famoso soa bem diferente das canções mais populares como “Sexual Healing” ou “Ain’t no Mountain High Enough”. O estilo Soul é o mesmo, não estivéssemos a falar do incomparável Gaye, mas os temas são em nada semelhantes.

Quando se pergunta o que é Soul não há nenhuma definição concreta a dar, pois não é só um estilo musical, é tudo aquilo que quem canta quiser que seja. Com Marvin Gaye, no álbum que lançou o artista numa época histórica tão particular, Soul é a perspetiva introspetiva do artista acerca de temas como o ódio, o sofrimento, as drogas e a guerra.

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O primeiro tema dá nome ao álbum. “What’s Going On” começa com o cenário de mães a chorar e de um irmão a morrer. Pede que seja trazido amor porque a guerra não é resposta e apenas o amor conquista o ódio (“war is not the answer/ For only love can conquer hate”). Tudo isto cantado num ritmo caloroso e envolvente com um toque de Gospel, característico de Gaye.

Segue-se “What’s Happening Brother”. A dúvida em relação à melhoria do cenário anterior que se fala nos jornais é levantada enquanto a questão do primeiro tema se mantém, desta vez dirigida a um irmão. Começa a ser percebido um discurso de quem testemunhou em pessoa aquilo que descreveu na abertura e, em “Flyin’ High (In the Friendly Sky)”, Gaye confirma que pertenceu à força aérea e fingiu “ser tolo” para escapar dessa função. Esta canção conta essa história de forma simples.

“Save The Children” é sinónimo de salvar o mundo. Marvin Gaye alerta para um problema que existe ainda nos dias de hoje. Numa altura em que vemos notícias de crianças que morrem por uma guerra que não compraram, esta faixa é particularmente tocante. Das mais de 100 mil vítimas de violência e abusos no Senegal às violações que acontecem no nosso próprio país, a altura em que o mundo não cantará está cada vez mais próximo, tal como previsto e avisado por Gaye no seu ritmo e melodias subtis.

“God Is Love” transporta-nos mais uma vez para o lado mais religioso do artista. A sua veia de Gospel volta ao de cima enquanto nos relembra de que tudo o que Deus nos pede é que demos amor uns aos outros. “Mercy Mercy Me” tem uma vertente mais ecológica. As mais recentes greves estudantis são como que uma continuação da mensagem que vem desde 1971.

“Right On” explora os instrumentos de sopro numa maior dose do que as faixas anteriores. Exalta e, de certa forma, normaliza as diferenças sociais e prende o ouvido durante sete minutos, mesmo numa altura em que ouvir é uma capacidade subvalorizada. “Wholy Holy” surge de seguida, num ritmo mais calmo, apelando pela união de todas as pessoas. Contraditório? Talvez. A crítica social, no entanto, parece-me ser uma forte componente deste álbum. E nada melhor para uma crítica do que a contradição de ideias para ressaltar aquela que nos parece a mais acertada.

O projeto termina com “Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)” com uma batida que lembra África. A corrida pelo armamento e a chegada à lua compõem o primeiro verso. O crime aumenta, o pânico espalhasse, o dinheiro escasseia para alguns e quem tem cabelo comprido é julgado. A faixa é o resumo de todos os problemas anteriormente falados no álbum, funcionando até como uma espécie de conclusão cíclica.

Ao ser descritivo, Marvin Gaye tornou-se um visionário. Os problemas que via em 1971 podem ser metafórica (ou literalmente) vividos em 2019. Com um toque de Blues, as melodias emotivas e misteriosas são complementadas pela voz e coros Gospel e dão até a solução para os problemas. O amor e a união são ressaltados como as soluções para o ódio e a destruição. Pode ser que, entretanto, as pessoas se comecem a ouvir mais.