O mais recente trabalho de Coruja Bc1, Psicodelic, leva-nos numa viagem de narrativas de uma criança que cresceu na periferia do Brasil. Na verdade, a ideia principal é essa, mas o conteúdo apresentado chega-nos com uma carga emocional tão grande que é impossível resumir este disco a uma ideia tão simples.

Depois de sair da Laboratório Fantasma, a sua última gravadora, o jovem rapper lançou a 23 de maio, de forma independente, o seu terceiro albúm de estúdio, intitulado Psicodelic. As canções continuam a abordar problemas estruturais da nossa sociedade como o músico já nos habituou, mas com um olhar muito mais para dentro de si mesmo, passando por temas como o amor, a depressão e a saúde mental.

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O disco começa exatamente com a história do artista ter visto o pai a ser baleado quando ainda era criança. “Lágrimas de Odé” soa como uma “pancada” no cérebro do ouvinte, prendendo a atenção, como podemos ouvir logo no início “Eu com seis anos, vendo meu pai tomar seis tiros / Sangue no chão do barraco no meio do gueto / Ainda criança vi o que o sistema reservou pros pretos”. É narrada a partir da visão de uma criança que cresceu e relembra traumas não curados, vendo agora os resultados da violência estrutural na prática. É uma denúncia de algo que precisa ser ouvido, sobre um instrumental indefinido que varia ao longo da faixa. Numa segunda parte, é invocada a figura de Iansã ou Oyá, pedindo que traga bons ventos.

“Gu$tavo$” mostra a rebeldia e indignação de dois jovens negros de periferia. A faixa conta com a participação do rapper Djonga que, para além do ano de nascimento (1994), partilha também com Coruja o nome Gustavo. A letra tem um tom sarcástico, contendo várias referências e metáforas, e é cantada sobre um instrumental cru e simples. Trata-se de um grito de justiça acerca de problemas como a homofobia e o racismo.

A faixa “Interlúdio” retrata uma sessão de terapia entre o artista e uma psicóloga, em que o rapper descreve alguns dos seus traumas de criança, relacionadas ao ambiente em que vivia. Baseado nisso é quase um incentivo para cuidarmos da nossa saúde mental corretamente, fazendo ligação com a próxima faixa, “Meu Anjo”, quando a psicóloga pergunta sobre o amor. “Meu Anjo” é cantada em cima de uma guitarra acústica e é uma música que fala sobre o amor como cura.

Mais para a frente é possível ouvir “Um acorde”, com a participação de outro nome de peso, o rapper Zudizilla. A letra fala sobre a libertação dos traumas e não deixar que as más experiências do passado afetem as nossas relações amorosas. A temática, em conjunto com um instrumental leve e cativante, fazem o ouvinte ficar viciado.

Coruja Bc1 mostra a sua versatilidade ao escrever um Samba, “Camisa 12”. Sobre a batucada inconfundível, o artista conta a história real de um amigo que era um craque no futebol mas que, devido às circunstâncias do sítio onde cresceu, acabou por ser preso na altura que fazia testes para jogar. Com a ajuda de Késia Estácio no refrão, o rapper compôs um Samba-Rap com uma incrível crítica social, utilizando o futebol como uma metáfora. “Ele não tinha opção / Pressão, fez buscar uma saída / Aliás, fica a reflexão / O ser humano não entra em campo mas ama apita a partida”.

A última faixa “Skr” não é uma crítica, mas sim um alerta. É um abrir de olhos, para todas as pessoas inseridas no Hip-Hop e principalmente no Trap, e do quanto outros se aproximam do movimento, apenas para o sugar e obter algum lucro dele. Essa ideia é bem clara nos versos: “Esses publicitários brancos, irmão não amam você / Grana, dinheiro e bitch / Bitch, dinheiro e fama / Eles amam meu povo nas droga s /Pois isso faz parte da trama”. Coruja considera que a cena Trap é positiva e que todos que o utilizam devem ganhar dinheiro, mas alerta para o facto de que muitos são usados apenas como produto de entretenimento para vender.

Assim, no refrão, faz referência a vários nomes que utilizam o estilo Trap, comparando-os a si mesmo. Para além disso aponta que, mesmo assim, não deixa de ser um ‘Rakim’, mencionando o lendário rapper norte-americano, um dos pioneiros do Hip-Hop. “Brinquei de Drake e ainda sou o novo Rakim / Brinquei de Quavo e ainda sou o novo Rakim / Brinquei de Pump e ainda sou o novo Rakim”. Toda a letra é cantada em cima de um instrumental com uma atmosfera pesada ao estilo anos 90, assemelhando-se até ao clássico “Twinz” de Big Pun e Fat Joe, lançado em 1998.

Aos 24 anos e a escrever rimas desde os sete, o rapper lança Psicodelic depois de passar por um período de depressão em 2018, que fez com que muita coisa mudasse na sua vida e que gerou boa parte do material do disco. Para além das diferentes temáticas que trata, a sonoridade também é diferente dos trabalhos anteriores, passeando pelo Trap, Bommbap e até Samba, resultado da escolha de vários produtores que participaram no disco. Para o músico, a data e o horário de lançamento, 23 de maio às 20:00, tem o seu significado. Há exatamente 18 anos, a essa mesma hora, ele via o seu pai morrer com seis tiros. A data ganha um novo significado, deixando de ser motivo de choro e passando a ser motivo de alegria.