Há quase 20 anos, o Rio de Janeiro vivia um momento político e social bastante conturbado, quando se ouviu um bramido de protesto das favelas cariocas que ecoa até aos dias de hoje. O terceiro disco da banda O Rappa, Lado B lado A, lançado a 15 de Setembro de 1999, foi o grito que expôs a violência e os crimes sociais cometidos quotidianamente nas periferias do Rio no fim dos anos 90.

No projeto anterior, a banda já tinha passeado por vários ritmos que lhes permitiu consolidar uma boa base de fãs. Mas foi com este disco que os músicos tomaram as rádios, unindo ao Reggae e Rock uma boa dose de Rap que demonstrava já ser a voz dos marginalizados.

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Esse discurso social leva-nos exatamente à primeira música “Tribunal de Rua”. Retrata situações de violência policial, apontadas pelo autor como algo comum no bairro onde vive, “De geração em geração/ Todos no bairro já conhecem essa lição”. É um Rap cantado com alguns elementos de música eletrónica onde o autor, Marcelo Yuka, baterista da banda, faz referência a um incidente que aconteceu na favela de Vigário Geral. Em 1993, 36 polícias militares armados invadiram casas e bares e executaram 21 moradores inocentes, ficando conhecidos como “Cavalos corredores”. A música termina com a conclusão de que nas favelas cariocas a democracia é violada todos os dias, “Era só mais uma dura/Resquício de ditadura/Mostrando a mentalidade/De quem se sente autoridade/Nessa tribunal de rua”.

Assim, é possível criar uma ligação com a faixa seguinte, “Me deixa”. Lançada como single e com grande sucesso nas rádios, trata-se de uma manifestação em que o autor expressa a sua vontade de ficar em casa a sonhar, sem que a repressão o atinja.

O que sobrou do céu” é um apelo às coisas simples que são esquecidas na vida. A música sugere o quanto a televisão nos pode distanciar e alienar e também o quanto a rotina nos desgasta, “Faltou luz mas era dia/O sol invadiu a sala/Fez da TV um espelho/Refletindo o que a gente esquecia” . Por isso, no refrão, o vocalista canta “Pra gente ver/Por entre os prédios e nós/Pra gente ver/O que sobrou do céu”, descrevendo a verticalização urbana das grandes cidades que, em determinado momento, taparam a visão do céu, fazendo uma metáfora com a nossa vida.

Em “Minha Alma”, o sossego ou o silêncio daqueles que se sentem oprimidos é o alvo do sujeito poético. A música tornou-se um dos maiores êxitos do grupo, talvez por conseguir criar ligação com pessoas dos mais variados contextos, que se identificaram com o que está a ser dito. A composição, neste caso, não se refere apenas a um certo grupo de pessoas, mas sim a todos os cidadãos que se calam perante normas socialmente aceitáveis, como se não tivessem o direito de falar. A canção fala daquela paz que não é real mas sim um sintoma do medo, como ouvimos nos versos “Pois paz sem voz, paz sem voz, não é paz, é medo”.

“Lado B lado A” resume bem a sonoridade experimental presente em todo o disco. É um Rock pesado mas com um refrão melódico que incorpora elementos do Rap e música eletrónica. Assim, apesar da banda mostrar a sua capacidade em criar músicas que se adaptaram a diferentes ambientes, houve sempre espaço para falarem do universo específico que os rodeava: a vida na periferia.

Em “A Favela” ou “A todas as Comunidades do Engenho Novo”, duas das poucas composições que não são de autoria de Marcelo Yuka, evoca-se o Samba como a música da favela. É descrito o quotidiano, retratando situações como os jogos de futebol entre os moradores e os bailes de música.

O disco termina num tom de prece com “Na palma da mão”, onde é contada uma história em que o negro salvou as pessoas envolvidas no crime, ao pegar numa viola e tocando para eles. Pode ser feita uma analogia com o poder de transformação social da cultura e da arte, como umas das poucas formas dos moradores de comunidades se salvarem e evitarem o caminho do crime.

A banda conseguiu extrair a multiculturalidade das favelas e produzir uma sonoridade experimental nunca antes ouvida. A verdade é que nunca composições tão críticas tinham alcançado o mainstream tornando-se hits como as deste disco. É por isso que não posso terminar esta crítica sem deixar de fazer uma menção especial ao baterista Marcelo Yuka, que faleceu este ano. Ele foi a mente pensante do grupo e compôs hinos que transcendem gerações.