O australiano Kirin J. Callinan lança o seu segundo disco, Return to Center, envolto numa onda de polémica e controvérsia. Desta vez, procura gravar um álbum sem pagar pelos instrumentos.

Um dos mais exóticos artistas australianos, Kirin J. Callinan saltou para a ribalta em 2017 com o seu hit “Big Enough”. O videoclipe da música, que conta com a colaboração do infame cantor Pop Alex Cameron e da estrela do Rock Jimmy Barnes, tornou-se um fenómeno viral da noite para o dia.

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Fazendo uso disto, Kirin lançou o seu primeiro álbum, Bravado, onde se destacou junto da crítica pela sua cativante fusão de música Pop e Eletrónica. Mesmo abordando temáticas pesadas, como o respeito e união entre culturas e países, a mortalidade humana, drogas e até masculinidade tóxica, nunca se chega a levar muito a sério.

Foi precisamente pelo exagero na abordagem a estas temáticas que se destacou como uma figura muito polarizante dentro da indústria. A sua maneira irreverente de desafiar temáticas como a sexualidade e a masculinidade, quer pela sua música ou pela sua presença social, quase lembra titãs como David Bowie ou Iggy Pop.

Em Return to Center, Callinan procura explorar novas fronteiras com um conceito mirabolante: concretizar um álbum de covers dos mais variados artistas, no qual comprava todos os instrumentos e, 14 dias depois, os devolvia à loja para conseguir um reembolso completo. O resultado é uma obra que surpreendentemente transmite toda a essência do australiano, sem contar com a palete instrumental detalhada de Bravado.

A música de abertura é o one-hit wonder da banda Opus, “Life is Life”. Em vez de uma instrumentalização Rock, somos acolhidos por toda uma cacofonia instrumental quase lo-fi que, enquanto soa um tanto pateta, conduz bem o tom algo heróico da voz de Kirin.

Herdando faixas mais desconhecidas como “The Homosexual”, originalmente do escocês Momus, ou “It Takes A Muscle To Fall In Love”, dos holandeses Spectral Display, o australiano troca os sons mais sintéticos e eletrónicos por toda a estética mais caseira do álbum. Os suaves acordes da guitarra casam perfeitamente com o registo vocal mais acolhedor do artista, garantindo um som mais acústico e distinto relativamente a projetos anteriores.

Outras viram as autênticas odisseias modernas que tinham potencial para ser, como “The Whole of The Moon”, de 1985. Ao livrar-se de elementos redundantes da versão original, Kirin refina a música ainda mais, polindo tudo isto com instrumentos mais modernos e intensos.

Contudo, não deixa de haver espaço para baladas sentimentais que parecem retiradas do período do qual muitas destas músicas fazem parte. Exemplos disto são “Pretty Boy” e “You Weren’t In Love with Me”, faixas que cedem mais ao material original e menos à identidade do australiano. Podem não ser faixas más, mas não trazem nada de interessante ao projeto.

Ironicamente, a única música criada de raiz pelo australiano, “Return To Center”, é a mais alienada do resto do álbum. É um instrumental de quatro minutos e meio que acaba por parecer algo confuso e perdido, no meio de uma listagem tão sonicamente coesa e própria.

Após este derradeiro travão musical, que se achava melhor dentro de um álbum de Sigur Rós, iremos encontrar “Rise”. Aqui, o cantor decide enfrentar o seu recente incidente com a justiça – por ter exposto os seus genitais aos fotógrafos nos ARIA Music Awards – usando, para isso, a faixa pertencente aos Public Image Limited. E, de certa forma, esta canção de 1986 adapta-se perfeitamente à situação do cantor.

O momento mais engraçado do álbum dá-se em “Signed Curtain”, gravada em 1972 por Matching Mole, no qual, intensamente delineado por um novo forro Grunge, o multi-instrumentalista australiano extorque todas as gotas de energia que consegue das letras. A fechar o álbum, “Vienna”, é semelhante ao material original, com uma presença mais definida da percussão digital e do piano, procurando ir à busca de um som mais celestial e conclusivo.

Sim, Return to Center não contém uma nova remessa de músicas provocadoras ou excêntricas como iremos achar em Bravado. Mas isso não o faz ser um projeto menos interessante, com escolhas musicais bastante refinadas e cuidadas. Nestes hits, alguns deles esquecidos pelo tempo, iremos encontrar sobretudo um pedaço de identidade de Kirin e bastantes das influências que o dirigiram na criação do seu primeiro álbum.

Dando nova vida a todas estas faixas, o australiano presta um importante tributo, sobre um mote tão ou mais engraçado e exótico quanto a sua personalidade. E pode não ser perfeito ou sequer próximo disso. Mas, certamente, nem Kirin nem nós o somos.