Quatro anos depois de “Rebel Heart”, Madonna soma o 14º álbum à sua discografia. Madame X, nome do seu alter-ego que adquire múltiplas personalidades, caracteriza-se não só pela presença de mensagens poderosas sobre a sociedade atual, mas também pela sua energia positiva.

O primeiro single é “Medellín” e introduz a vibe latina presente em todo este projeto. Uma contagem que marca o ritmo do cha cha cha dá início à música. Este início justifica-se pelo facto de Madame X, segundo Madonna, ser também uma instrutora de cha cha cha. Conta com a colaboração de Maluma, cantor colombiano, cuja cidade natal – Medellín – dá nome ao tema. As vozes dos dois conjugam-se muito bem e criam uma energia sensual.

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A segunda faixa, “Dark Ballet”, contém imensas referências culturais, ao mesmo tempo que critica sociedade e a sua evoluçãoao longo do tempo. No geral, inspira-se na história de Joana d’Arc, uma heroína que foi decisiva na vitória da França na Guerra dos Cem Anos. No entanto, acabou por ser capturada pelos ingleses, executada por ser mulher e acusada de bruxaria. Com isto, prossegue fazendo críticas à sociedade, nomeadamente à desvalorização da mulher, usando a banda sonora do ballet do Quebra-Nozes.

Dando continuidade à vertente crítica do álbum surge “God Control”. É sobre a violência de armas e a falta de controlo sobre quem as compra nos Estados Unidos. Conta com a participação do Tiffin Children’s Choir, precisamente para chamar a atenção de vários tiroteios que acontecem em escolas. No entanto, isto também acontece em bares e discotecas, onde supostamente haveria mais segurança. Madonna usou este facto como inspiração para produzir esta música Disco que alerta para os riscos que a sociedade corre.

Ao contrário da anterior, “Future” mostra que ainda há esperança. Apesar de nem todos, especialmente políticos, aprenderem com os erros cometidos no passado, admite que ainda há essa possibilidade. O importante é continuar a lutar pela igualdade e por uma vida melhor. Em termos de estilo, “Future” tem uma aproximação ao Reggae, contando com a colaboração de Quavo do grupo Migos.

Killers Who Are Partying” é uma música bastante poderosa a nível da mensagem que transmite. Apresenta um ritmo bastante relaxado, fazendo uso da guitarra portuguesa. Aqui, Madonna mostra a sua solidariedade para com as minorias que são discriminadas, tal como a comunidade LGBTQ, pessoas de religião muçulmana, as mulheres, entre outros. Contém alguma da letra em português, dizendo “o mundo é selvagem”, e “o caminho é solitário”, que incentiva a confiar em nós próprios. Apela ainda a que cada um se sinta livre para ser o que desejar e não ser julgado por causa disso.

Com “Crave” entramos na onda do amor. A colaboração com Swae Lee conta a história de dois apaixonados, cujo amor é excessivo, e que os conduz para uma relação tóxica. Apresenta um ritmo Pop com alguns apontamentos de Trap, muito graças à influência de Swae Lee. As vozes dos dois fluem muito bem e criam uma música interessante.

Crazy” é também sobre uma relação que está a passar por uma má fase. Neste caso, o parceiro de quem Madonna fala não a valoriza e acusa-a de ser ingénua e maluca. Com isto, a cantora abre os olhos e entende que pode fazer jogo psicológico com o outro, usando a sua “fraqueza” como uma estratégia para conseguir o que quer.

O título da próxima música é “Extreme Occident” e refere-se aos países do Ocidente, tal como os EUA e a Europa, onde a artista viveu. No entanto, admite que viaja para procurar a sua verdadeira identidade, acabando por se instalar em Lisboa. A partir disto, mostra que já não se sente perdida, compreendendo que a vida é uma viagem.

A décima primeira faixa já é conhecida dos portugueses, por isso Madonna decidiu implementá-la no seu álbum. “Faz Gostoso”, da Blaya, integra Madame X como um cover de Madonna com Anitta, artista brasileira. Fez um arranjo diferente e agradável, cantando algumas partes em inglês.

De seguida surge novamente uma colaboração com Maluma chamada “Bitch I’m Loca”. Fala sobre o desejo sexual e aproxima-se muito mais ao estilo Reggaetón de Maluma.
Looking For Mercy” faz um contraponto e mostra o lado religioso da cantora. Confessa procurar misericórdia pelos erros passados e deposita toda a esperança nas suas orações e rezas para que se possa sentir livre.

Madame X acaba com chave d’ouro com “I Rise”. É uma música bastante poderosa que crítica politicamente a sociedade dos Estados Unidos. No videoclipe vemos refugiados, feridos resultantes da guerra, tiroteios, manifestações para a liberdade de expressão e de direitos iguais para todos, e ainda casamentos gay. Com “I Rise”, para além de demonstrar novamente solidariedade para com as minorias, Madonna mostra que ela própria conseguiu resistir a críticas e ataques, acabando por seguir em frente.

Contudo, houveram músicas que não se destacaram de entre o conjunto das 15. São elas “Batuka”, que conta com The Batukadeiras Orchestra apresentando um ritmo afro, “Come Alive”, e “I Don’t Search I Find”. No geral são um pouco repetitivas, inclusive a última que, sendo Disco com apontamentos de House, torna-se fraca em comparação com algumas das excelentes faixas que este álbum possuí.

Concluindo, este projeto é um reflexo de uma artista que já tem muita experiência, tanto profissional como pessoal, tornando-o bastante genuíno e quase poético no seu conteúdo. O facto de Madame X ser um alter-ego pode significar o facto de Madonna não se conformar com a sociedade e ter vontade de arriscar e criar. Agora é esperar e ver se a “rainha do pop” nos irá surpreender novamente.