A banda nipónica Otoboke Beaver lança o seu primeiro álbum, Itekoma Hits, disfarçado de compilação de todos os sucessos da carreira. Apresenta-se sem medos e sem inibições, procurando garantir que todos os segundos deste projeto contêm o máximo de personalidade.

Apesar de já contarem com dez anos de carreira, o grupo proveniente de Quioto nunca tinha lançado um álbum completo. A sua discografia, constituída principalmente por EPs e Singles, debruça-se principalmente sobre o Punk Rock, apoiando-se fortemente no movimento Riot grrrl, sendo que os seus elementos são estritamente mulheres.

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Além da adesão local, muitas publicações internacionais já tinham analisado este quarteto, destacando o estilo bastante frenético e agressivo dos instrumentais, acompanhada por letras entregues muitas vezes ao limiar do screamo. As abundantes mudanças de ritmo e tempo são também uma constante.

Itekoma Hits acaba por ser uma compilação de material antigo e recente da banda que, de alguma forma, resulta num projeto surpreendentemente conciso e belissimamente conglomerado.
Com linhas de baixo bastante ágeis, “Datsu . hikage no onna” abre o álbum perfeitamente, misturando a sua presença bastante nipónica com o Punk Rock, de uma forma que relembra bandas como Gogol Bordello.

De uma maneira mais experimental, “Akimahenka” contém um passo incrível, com frequentes mudanças de ritmo e de estilo, pautado desta vez pela guitarra. Porém, é só em “S’ill vous plait” que começamos a deslumbrar toda a versatilidade da banda. Com um instrumental, que se dispõe quase veranil, ouvimos o grande poder e presença vocal que todos os elementos trazem para cima da mesa, antes de a faixa culminar num derradeiro frenesim ruidoso.

A banda está sempre na mesma página em relação ao que tem de fazer, trazendo mais personalidade e acertando uma certa disciplina e organização do seu próprio som. Com resultados incríveis tanto a nível melódico em faixas como “Introduce me to your family” ou para o lado mais bélico e intenso de “Anata watashi daito ato yome no meshi”.

Outra das ferramentas cruciais do grupo é a entrega bastante crua e destemida, sem quebrar minimamente a produção ridiculamente compacta e precisa. Como na veloz “What do you mean you have talk to me at this late date”, que mantém o ruído bastante baixo para uma música que acaba por ser tão inconstante e caótica.

E se “Don’t light my fire” começa bastante calma, é também um dos melhores exemplos disto. Logo pela zona dos 17 segundos, somos imediatamente catapultados para um moshpit sonoro. É agressivo, é Punk e atira-nos um soco rítmico ou dois, mas é precisamente aquilo que estamos à procura na entrada da reta final do projeto.

A faixa “Bad luck” possui um início pautado por um slap bass que nos transporta para uma das composições mais intensas de Hideki Naganuma, acabando por evoluir para um momento mais pausado onde a melodia vocal dos elementos da banda quase nos embala. Isto antes de explodir para uma faixa de Rock Alternativo.

Contudo, também iremos achar conteúdo inspirado em coisas que vemos pelo ocidente. “6 day working week is pain” está quase a entrar no Punk Político de IDLES, constituindo parte das faixas que abordam temáticas como pressões sociais e pessoais que contaminam a sociedade japonesa, como “Introduce me to your family”, “Love is Short” e “Binge eating binge drinking bulimia”.

Porém, o álbum não está isento de momentos mais desinteressantes. Por exemplo, “I’m tired of your repeating story” não apresenta nada de relativamente novo dentro do projeto, fora da dose habitual de mudanças na batida e de estrondosos gritos.

Em suma, é surpreendente a maneira como tanto material conseguiu ser reunido num único projeto e apresentar-se como algo tão consistente como este álbum. Otoboke Beaver exibe, de facto, 30 minutos de Punk Rock imparável, com espaço para uma estonteante variedade dentro deste, sem tirar o pé do acelerador ou perder o momento sempre que decide dar ao ouvinte um espaço para respirar.

Não deixa de ser bastante positivo verificar que este não tem sido o único projecto deste género proveniente da terra do sol-nascente que obtém uma forte aprovação internacional. Assiste-se talvez a um rejuvenescimento do Rock japonês, que cada vez mais encontra um público e sucesso dentro das audiências ocidentais, sem perder a sua identidade ou a sua língua.