A atitude polémica de Tyler, The Creator acabou definitivamente. Com IGOR, o rapper norte-americano assume uma postura defensiva na sua vida amorosa com uma continuação do projeto anterior, Flower Boy, onde se percebem os sentimentos e revelações quanto à sexualidade.

Ao longo das 12 faixas que o álbum contém, Tyler expõe dúvidas e demonstra as traições e separações de que foi alvo na vida. No entanto, o instrumental é o elo fundamental para a compreensão, visto que é raro ouvirmos o rapper a cantar. “Igor’s Theme”, como o nome indica, é a marca registada de todo o álbum, onde o tema separação surge de novo e vai ser recorrente ao longo de todas as faixas seguintes.

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Jerrod Carmichel, humorista e amigo de Tyler, é presença em vários momentos para dar um ar narrativo no álbum, como se fosse contar uma história aos ouvintes. Em “Earfquake”, a paixão é definitivamente demonstrada, quase implorando para que essa pessoa fique para sempre e não o abandone, culpando-se por algo de mau que se tenha passado. Saltando para “I Think”, o cantor partilha a faixa com Solange. Assume que acha que se apaixonou e a batida quase se sobrepõe às vozes suaves de enamoramento.

O amor nem sempre foi correspondido, “Running Out Of Time” é o maior exemplo disso. Tyler assusta-se, pensa que o tempo é demasiado curto e que a pessoa que ama pode não se apaixonar por ele. Com um ritmo lento e demorado, as palavras do título repetem-se muitas vezes ao longo de toda a faixa. “New Magic Wand” é, segundo o próprio, a sua música favorita. O desespero para que se apaixonem por ele continua, mas os sentimentos que ainda possui pela ex-namorada salpicam nos pensamentos, tal como a batida picada e constante.

A inspiração em Kanye West também é percetível. Em “Boy is a gun”, o rapper alude a uma possibilidade de ser bissexual, comparando um homem a uma arma. O som do gatilho e a frase “don’t shoot me down” são parte de um refrão curto, pesado e sentido. A voz de Kanye entra em “Puppet”, numa das várias colaborações do álbum. Nesta canção, o amor é identificado como algo superior que consegue controlar as pessoas, moldando-as como quer.

As quatro faixas finais são como que um diálogo final entre dois apaixonados. Em “What’s good”, a bateria dá um ar agressivo ao único momento do álbum em que Tyler, The Creator canta durante toda a canção, sem conceder lugar a momentos longos de instrumental. “Gone, Gone/ Thank You” está dividida em duas partes. Na primeira, o rapper fala do amor que perdeu pelo seu parceiro; na segunda, sentimos os pensamentos sobre o amor, onde se sente que nunca mais quer amar alguém e que, mesmo assim, agradece todo o amor e a alegria que lhe deu.

O sentimento apaixonado desmorona a cada canção. No entanto, em “I don’t love you anymore”, apesar de parecer que já se esqueceu tudo o que sentiu, Tyler mente a si próprio. Na última canção deste complexo álbum, é questionado “Are we still Friends?”. O próprio título já indica o retorno à compaixão. Nesta faixa, o pensamento que ecoa na cabeça do cantor é a probabilidade de ele e o amado voltarem a ser amigos, com a ajuda da guitarra e de um “beat” que nos remetem para os anos 60 e o R&B de Al Green.

Em suma, este é um álbum inovador que passa por vários tipos musicais. O Rap é o estilo que normalmente identifica o artista mas, em IGOR, Tyler abre-se a novos estilos com a ajuda das diferentes colaborações. Apesar de ser um trabalho diferente do que nos havia habituado, o Tyler que conhecíamos continua a surpreender.