O primeiro e único álbum da banda brasileira Mamonas Assassinas foi lançado em 1995, mas os efeitos secundários da sátira que contém ainda são sentidos nos dias de hoje. Quando a editora EMI contratou o grupo, os elementos mentiram sobre quantas músicas tinham feitas. Por isso, durante uma semana, criaram e utilizaram cerca de 14 músicas com letras complicadas e complexas, tendo todas elas uma história caricata para contar aos ouvintes.

Entre as várias faixas do disco, algumas focam-se em paródias de músicas conhecidas do público em geral. “Lá vem o Alemão” baseia-se num sucesso da época “Lá Vem o Negão”, do estilo pagode, e “Bois don’t cry”, por sua vez, utiliza os acordes de “Boys don’t cry” dos The Cure. A versatilidade de estilos musicais era também uma marca dos Mamonas, onde quase todos os gostos eram abrangidos, ajudando ao sucesso do grupo.

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1406” inspirou-se num número de telefone de compras, ao estilo das televendas, e pelo meio a banda também faz publicidades a produtos que lá se vendiam. Sob o som de um baixo, criticam claramente o consumismo, onde até os cães ficavam babados com tudo. Seguindo a lógica das compras, “Chopis Centis” descreve o passeio de um pedreiro com a sua namorada a um centro comercial e a novidade de ver tanta gente e alegria num espaço tão pequeno. No início, essa faixa aparenta ter como fundo a música “Should I stay or should I go” dos The Clash, mas alguns acordes foram mudados.

Sábado de Sol” e “Sabão Crá-Crá” são as únicas faixas do disco que não são de autoria da banda. A primeira é de autoria desconhecida, mas como gostaram de como soou num dos ensaios, entrou no álbum. A segunda, ao estilo Punk Rock, é de Baba Cósmica, uma banda da família da editora dos Mamonas Assassinas.

Cabeça de Bagre” conta uma experiência do vocalista Dinho na altura em que estava na “Quinta série” da escola. No final de contas, é uma crítica ao estado do Brasil e uma brincadeira sobre as notas fracas que obtia nos testes escolares. No caso de “Mundo animal”, a letra expõe observações dos elementos do conjunto sobre as diferentes espécies e as situações cómicas em que nos colocam.

Vira Vira” foi a música que transportou a fama da banda brasileira além-fronteiras. Isto porque o Vira é um estilo de Portugal, e a letra é baseada numa piada de um humorista brasileiro sobre portugueses. O sucesso chegou ao nosso país, onde tinham concertos marcados, de uma forma fulminante.

A forma de desfrutar da banda era não levar tudo a sério. “Uma Arlinda Mulher” copia alguns momentos da música “Creep” dos Radiohead e alude a “Fake Plastic Trees”, da mesma banda. “Débil Metal” segue a mesma linha, mas desta vez o cartoon é sobre a banda de Heavy Metal Sepultura. É a única do álbum na língua inglesa, mas o título faz um trocadilho com “débil mental”.

Pelados em Santos” era uma das músicas já escritas por Dinho e foi um dos maiores sucessos da banda. A letra é um convite romântico para um passeio em São Paulo, e mais uma vez se consegue perceber uma referência de uma canção mais antiga para os acordes. Desta vez, percebe-se que a paródia é à música “Crocodile Rock”, de Elton John.

Dentro da fita K7 que a banda enviou para as diversas editoras, “Jumento Celestino” mostra que letras complicadas também podem ter sucesso. Num ritmo rápido e muitas vezes impercetível, é uma paródia ao Forró, um estilo maioritariamente nordestino e fala de um homem que vivia na zona da Bahia e que migrou para outro lugar.

Por fim, “Robocop Gay” foi, segundo os especialistas, a segunda mais tocada na época, apenas atrás de “Pelados em Santos”. A história da canção é sobre um homem que realizou uma operação plástica, inspirada numa personagem do apresentador brasileiro Jô Soares, o “Capitão Gay”.

Quando acabam os 39 minutos de música, a maioria das pessoas esboça um sorriso. Os Mamonas Assassinas, no curto período de tempo em que atuaram, tornaram os tempos difíceis do Brasil mais suaves e trouxeram uma tolerância maior sobre assuntos tabú. Não é consensual, mas o que é certo é que ficaram no coração de muita gente e mudaram o paradigma musical nos anos seguintes.