When They See Us dá-nos a conhecer a história real do caso da corredora do Central Park (the central parkjogger). É um retrato fiel e emotivo da injustiça que levou ao encarceramento de cinco jovens inocentes em abril de 1989.

Há 30 anos, cinco jovens foram presos por supostamente violar e espancar uma mulher no Central Park, em Nova Iorque. Entre eles, quatro afro-americanos e um latino-americano. Procuradores e repórteres referiam-se a eles como uma unidade singular, tal como uma alcateia (“wolf pack”). Isto, através da desumanização, rendeu-lhes o título de “Os cinco do Central Park”.

When They See Us

A minissérie começa por mostrar um vislumbre da vida normal dos cinco rapazes, Raymond, Kevin, Yusef, Antron e Korey, antes da noite fatal que lhes mudou as vidas para sempre. Mas não é gasto muito tempo em normalizar a vida daqueles miúdos. O modo como a narrativa avança e se altera drasticamente mimica o que aconteceu na vida real deles.

O primeiro episódio foca-se essencialmente com o que os rapazes lidaram individualmente quando foram interrogados e coagidos a confessar um crime que nunca cometeram. Já o segundo foca-se nos julgamentos, na preparação da defesa e na preparação do caso da acusação. É realçado o quão fraco era o caso da denúncia. Mesmo assim, os adolescentes são considerados culpados, sentenciados a penas entre 5 a 15 anos.

Nestes dois primeiros episódios é evidenciada a inocência e ingenuidade destes miúdos de 14, 15 e 16 anos. Tanto na sala de interrogatórios como no tribunal é possível ver o medo, confusão e frustração destas crianças, que não entendem o porquê de serem alvo de acusações tão cruéis. Nota-se, ainda, o desespero para que aquilo acabe e possam seguir livremente.

When They See Us

As cenas dos julgamentos são marcadas por um turbilhão de emoções. A música acompanha estes altos e baixos e o silêncio intensifica as cenas mais impactantes, como a chegada da vítima para depor em tribunal. Os planos demonstram o quanto a vida dos jovens ia mudar. Isto é principalmente claro nos close-ups dos rapazes durante a leitura dos veredictos, intercalados com os planos dos mesmos antes do acontecimento.

O episódio três leva-nos numa viagem temporal pela vida de quatro dos rapazes. Deslocamo-nos desde o tempo em que estiveram no centro de detenção juvenil até à adaptação (ou falta dela) quando estão cá fora. Com a transição de planos e conjugação de fade in e fade out do diálogo, vemos os rapazes tornarem-se homens. Observamos como o mundo mudou na ausência deles, o quão difícil se tornou encaixar-se nesse mundo. Isto acontece seja pela família, dificuldade em arranjar emprego, a reputação, ou todos estes. Isto é, mostra como a infância e juventude lhes foi roubada e quão isso afeta a mentalidade e a relação com a sociedade destes homens.

When They See Us

O quarto episódio foca-se primordialmente no quinto membro do grupo, Korey Wise. Este é o único que foi julgado como um adulto e preso imediatamente, por ter 16 anos. É apresentada toda a jornada desde a vulnerabilidade de um adolescente que chega a uma prisão cheia de adultos. Coisas como o abuso sofrido, o desespero por uma situação melhor, a injustiça, falta de compaixão e a solidão provocam uma reação emocional no espectador. Vemos a vida de um jovem a ser-lhe roubada, a esperança a ser destruída, a ingenuidade que prevalece, mas da qual os outros se aproveitam.

Todas as cenas exploram o psicológico de Korey e a dependência em ter alguém que se preocupe com ele. Um particular destaque para Jharrel Jerome que, ao contrário dos restantes interpretou Korey como adolescente e adulto. O ator invoca todas as expressões, pensamentos e emoções, o medo, confusão, desespero, frustração, indignação e até apatia na perfeição. Consegue demonstrar a evolução de um miúdo inocente para um adulto, marcado pelos 13 anos perdidos cumprindo pena por um crime que não cometeu.

Tudo muda quando um presidiário admite em 2002 ter violado uma mulher no Central Park em abril de 1989. Uma nova investigação é aberta que comprova que esse homem é o verdadeiro culpado, através de ADN. Os cinco agora homens são inocentes do crime do qual foram acusados durante 13 anos.

When They See Us

Toda a minissérie nos transporta para os anos 80, 90 e 2000, respetivamente, através do uso preciso de vestuário, música, iluminação, acessórios e edição visual. Tudo isto é também utilizado para reforçar a intensidade das cenas, personificar os personagens e demonstrar a evolução dos mesmos. Há cenas em que uma luz se foca sob a cabeça de um personagem e lhe dá uma aparência angelical. Ou, contrariamente, cenas em que a disposição de um cartaz ou letreiro entregam uma referência subentendida. Todos estes efeitos dão uma maior profundidade à história.

É importante realçar que os verdadeiros “Cinco do Central Park” estiveram envolvidos no desenvolvimento da série. Ava DuVernay, realizadora e argumentista, fez questão que estes homens pudessem contar a verdade, para que lhes fosse feita justiça.

É importante também salientar o elenco de excelência que protagonizou esta história. Conseguiram dar-lhe todo o sentimento e empatia necessários para nos interessarmos e relacionarmos com ela. Quando poucos foram aqueles que prestaram atenção à realidade, é necessário reconta-la.

When They See Us conquistou 16 nomeações aos Emmy, incluindo Melhor Minissérie, e Jharrel Jerome como Melhor Ator em Minissérie. Conta ainda com duas nomeações para Melhor Atriz em Minissérie (Aunjanue Ellis e Niecy Nash).

When They See Us

Assim, a minissérie traz-nos a realidade nua e crua de um caso falsamente avaliado devido a estereótipos e descriminação. Ainda mais, uma história que foi criada e expandida pelo Departamento Judicial de Nova Iorque e pelos média. Cinco adolescentes inocentes foram tratados como homens culpados e descartados pela sociedade. É algo recorrente nos dias de hoje e a série lembra-nos disso com pequenas referências à atualidade. Uma história sobre a perda de inocência num mundo que vê miúdos negros e latinos como culpados.

When They See Us aproxima-nos destes homens que contam a verdade, faz-nos entrar nas vidas deles e compreender as suas emoções. É criada uma conexão entre as personagens reais e o telespectador que gera uma revolta que deve ser guardada e lembrada. Isto para que não deixemos que injustiças como estas continuem a acontecer independentemente da etnia, religião, género ou sexualidade da pessoa em causa. A construção da série conjuga na perfeição a realidade dos factos e a complexidade de sentimentos. É impossível ficar indiferente.