Acompanhado pelas cordas de uma guitarra e fugindo ocasionalmente para o piano, Luís Severo envolveu a blackbox numa atmosfera intimista para apresentar o seu mais recente álbum “O Sol Voltou”.

O Gnration recebeu, no passado sábado à noite, a serenidade do novo disco de Luís Severo. De fato engomado, cantou e encantou sob os ténues realces de luz que, aos poucos, foi trazendo o sol de volta.

A subida ao palco fez-se timidamente, com um sorriso simpático que lentamente abriu lugar para “Cheguei Bem” e, após um aplauso caloroso, convidou o público para um tema já conhecido por todos, “Planície (Tudo Igual)”. A dança entre as luzes e as cordas da guitarra anunciava já um serão passado na plenitude da essência de Luís, que não deixou ninguém indiferente.

Cumprimentou a plateia ao fim de duas canções, agradecendo pela presença de todos, e relembrou a visita que fez ao Gnration há dois anos, quando gravou Pianinho – disco ao vivo.

Começou a compor na adolescência e, agora com 26 anos, apresenta uma nova lufada de ar fresco, produzida e tocada pelo próprio. Além de O Sol Voltou, tem também um álbum homónimo e conta com trabalhos como Boa Companhia e Cara D’Anjo. Soma ainda uma participação no álbum Menina, da fadista Cristina Branco.

As cores moldavam-se à energia de Luís Severo e “Boa Companhia” cantou-se em amarelo. Na blackbox, fez-se ninho para a “Primavera”, que trouxe escondida entre as cordas de uma guitarra. Nenhum dos presentes hesitou a juntar-se ao artista, aplaudindo desde início, extasiados. O Sol Voltou é um sinal de esperança, uma miragem tranquila sobre os amores e desamores que nunca abandonam a lírica do cantor.

Contou a todos os presentes que descobriu que ia ser tio e a última música que ficou no disco é “uma lista para explicar o mundo a um ser vivo que ainda nem está cá”. Revelou, também, que é apologista do “faz o que te apetecer e não penses muito no que toca a opiniões”. De olhos fixos na guitarra como quem toca o futuro em acordes, Luís fez com que “Deixa Lá, João” ecoasse por todos os cantos da blackbox, numa noite que não deixou nada a desejar.

A plateia rendeu-se a cada palavra de Luís Severo que, além de ter conquistado já um carinho por parte do público, trouxe o sol dentro de si e fez esquecer o frio lá fora. O Sol Voltou, nasceu, devagar, após lançar “Pianinho”. Conta que passou um ano a deixar frases soltas por aí e, depois da estadia numa residência artística nos Açores, começou a idealizar o projeto com mais garra.

A meio do concerto, surge um apagão que não fez calar o contentamento do público. Pouco depois, “Amor e Verdade” acendeu-se lentamente em cores quentes e vozes em sintonia.

Carrega na sua lírica uma verdade intemporal que traz próximos públicos de todas as idades e a noite ganhou outra forma com “Acácia”. A melodia mudou de rumo quando o piano se tocou sob a subtileza de Luís, que apresentou “Domingo” e “Última Canção”.

Sem medo de trazer consigo alguns tesouros do baú que vem construindo desde a adolescência, confessou que “as [músicas] mais antigas são as que eu me engano mais”. Concentrado, seguiu os ritmos no piano com um olhar atento e “Meu Amor” foi cantada de sorriso no rosto de todos os presentes, incluindo o artista, que ficou maravilhado com todo o apoio.

Telma Cardoso/ComUM

Despediu-se rapidamente do público, mas a euforia não cessou, fazendo Luís Severo regressar para uma despedida prolongada. Depois de cantar “Rapaz” acapella, como quem declama um poema, pegou na guitarra uma última vez e anunciou ironicamente: “vou tocar a minha música lisboeta, mas não fiquem preocupados porque é a falar mal… E depois talvez toque outra, logo se vê”. Prometido é devido e, logo após “Olho de Lince”, perguntou ao público quais os temas que queria ouvir.

A plateia pediu avidamente a música “Escola”, que Luís pediu que acompanhassem sem palmas, num diálogo descontraído e engraçado. Já no final, deu-se uma disputa entre “Vida de Escorpião” e “Lamento”. O artista argumentou que “Vida de Escorpião” é melhor que “Lamento”, “lamentando”, assim, a escolha.

Às 12 badaladas, Luís Severo cantava – tal como refere uma passagem de uma música – que “eu não sou de ninguém”, mas Braga rendeu-se à sua essência e entregou-se de corpo e alma à sua música.

Para surpresa do público, deu uma oportunidade a “Lamento” e ninguém se mostrou insatisfeito. Pelo contrário, o “até um dia destes” deu-se perante uma multidão contente, com um aplauso caloroso num registo de devoção e apoio ao artista.

Luís Severo marcou também presença na 9.ª edição do Gnration music market, no passado sábado, às 15h, para uma conversa sobre as suas escolhas musicais, moderada por Óscar Santos.