Dolemite Is My Name estreou no dia 11 de outubro nos cinemas e está também disponível na Netflix. Após a primeira exibição oficial no Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF), o filme recebeu maioritariamente críticas positivas, e com bom motivo.

Com um roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski e dirigido por Craig Brewer, Eddie Murphy regressa ao mundo do cinema encarando a pele do emblemático Rudy Ray Moore. Para aqueles que não estão familiarizados com Rudy, este foi um ator, comediante, produtor e cantor americano. Faleceu em 2008, mas deixou para trás um legado humorístico sem paralelos, marcado pela irreverência e falta de pudor do seu alter-ego – Dolemite.

Dolemite Is My Name

A primeira cena apresenta de imediato o caráter de Moore. Ainda que apaixonado pelo mundo do espetáculo, nunca atingiu por completo os seus objetivos enquanto artista, mantendo-se num impasse de “copo meio cheio”. Repleto de sonhos e ambições caídas por terra, o protagonista lamenta-se por aquilo que é e pelo que poderia ser.

Agora um funcionário na loja de discos de Roj (Snoop Dog), Rudy tenta a sua sorte enquanto cantor uma última vez. Com um discurso efervescido e enérgico, qual comerciante de resposta pronta na língua, tenta convencer Roj a tocar a sua música na rádio da loja. Mais uma vez rejeitado, o artista não baixa a cabeça e termina o seu turno com um novo plano em mente: escrever uma obra de comédia stand-up.

Para tal, tem por base as rimas perversas e obscenas que ouve, vindas de carismáticos velhos de rua. Os últimos trocam entre si histórias por via da tradição afro-americana “the dozens” (um jogo de palavras entre dois participantes, no qual cada um insulta o outro até alguém eventualmente desistir). A partir desse momento, a vida de Moore toma um rumo completamente diferente. Criada a personagem Dolemite, Rudy rapidamente ascende à fama entre a sua comunidade.

Dolemite Is My Name

O enredo desenvolve-se fluidamente. As quase duas horas passam despercebidas, revelando a fascinante jornada de Rudy no mundo do espetáculo com toda a sua glória. As cenas avançam sem nunca se arrastarem num só momento por muito tempo, tendo em conta que a vida de Moore sofre também mudanças drásticas a cada passo que toma. Deste modo, torna-se difícil desviar a atenção do ecrã.

Dolemite Is My Name é ainda fortemente pontuado por momentos cómicos. Nem em circunstâncias adversas o roteiro se torna taciturno. A personagem principal enfrenta qualquer tipo de obstáculo que se lhe opõe com ideias inovadoras, apoiando-se no seu grupo de amigos mais próximos.

Um dos aspetos que mais me chamou a atenção foi, sem dúvida, a trilha sonora. Composta por Scott Bomar e Kevin Broussard, o vigor do elenco é diretamente transparecido na energia vibrante da música. Seja através das poderosas atuações de Ben Taylor (Craig Robinson) no clube, ou da banda sonora que toca como fundo em determinadas cenas, o pulsar da bateria e do contrabaixo complementam na perfeição a personalidade cativante e pujante de Moore.

Dolemite Is My Name

Scott e Kevin, para além de encaixarem som nos movimentos do comediante, captaram ainda a essência dos anos 70 – uma mistura entre a rebelião dos anos 60 e a característica euforia dos anos 80. A trilha emana as mais reconhecidas características do Disco e do Soul. Antes mesmo de ver o filme, se ouvirmos a música, identificamos de imediato o tom da história.

No que concerne à cinematografia, mais uma vez, o trabalho capta aquilo que seria de esperar nos anos 70. A paleta de cores restringe-se a tons de castanho, azul, laranja e amarelo, como é visível de imediato no cartaz. O vermelho é ainda usado como um símbolo de rebeldia em praticamente todos os cenários, símbolo da tenacidade de Rudy – no marcador que indica onde fará os seus espetáculos de stand-up, na rosa da lapela do blazer, nas cortinas do clube, nos chapéus e na limousine que leva as personagens à apresentação do filme que produziram.

Um dos melhores usos da cor centra-se na progressiva renovação do que é o centro de produção do trabalho. Inicialmente decrépito, sem eletricidade e com madeira corroída pela humidade e pelo esquecimento, rapidamente regressa à vida. Roupas penduradas à vista nas paredes, colchões amarelos, perucas exuberantes. À medida que Rudy ganha confiança no seu próprio trabalho, a sua satisfação e a da sua equipa transparecem diretamente no edifício.

Dolemite Is My Name

Por último, é de apontar a genialidade das atuações de todos os atores, com particular destaque para Eddie Murphy, Craig Robinson e Da’Vine Joy Randolph. Como já referido amiúde anteriormente, Murphy transparece uma energia inesgotável durante quase duas horas. A perseverança é visível em todos os aspetos possíveis da sua interpretação: na arrogância confiante com que se prepara ao espelho de casa, pelo andar enérgico e, fundamentalmente, pela sua garra e boa disposição em palco.

Em suma, Dolemite Is My Name é um filme que exubere a glória dos anos 70 e, principalmente, a energia do mundo que rodeava Rudy Ray Moore. Ainda que de teor leve, o enredo não deixa de nos captar a atenção pela forma rápida e carismática como se desenrola. Das roupas até à música e à performance dos atores, o trabalho revela-se uma deliciosa história de perseverança e amor à arte que é a comédia.