It’s Just a Phase é o primeiro álbum da banda de São João da Madeira, Bong Kong. Instrumentos, voz, edição e ideais todos provenientes das mesmas cinco pessoas que protagonizam este projeto que diz enquadrar-se num novo estilo musical: o Bongcore.

Uma viagem hipnotizante, pesada, mas bem contada que saiu a 1 de novembro nas plataformas digitais e que foi apresentada ao vivo sábado, 23 de Novembro, na sua cidade natal. A estreia de Bong Kong no mundo da música não é, propriamente, uma estreia.

Página de Facebook de Bong Kong

Diogo Pardal (vocalista), Alexandre Bastos (baterista), Eduardo Oliveira (baixista), Paulo Pinho e Zé Bahey (ambos guitarristas) não são novatos. A maioria dos membros já tinha trabalhado noutros projetos e formado outras bandas. Contudo, decidiram reunir-se para “virar o mundo do avesso”. Com este novo género musical com que se definem – o Bongcore–  apresentam-nos uma junção enorme de géneros, subgéneros, artistas e situações que os influenciam. Já as estórias que contam são uma junção dos ideais e visões de sociedade de cada um dos membros.

Apesar de haver uma tentativa de aglomerar um pouco de todos os géneros musicais, destacam-se os subgéneros do Metal. Mas isto não é, de todo, um ponto negativo. A carga mais “pesada” e agressiva na música adequa-se perfeitamente à mensagem que pretende acordar uma sociedade que sabe que tem que pensar, só que não o faz. Parece cliché? Se calhar é. Até porque a banda afirma que não nos vai tentar vender rituais ou ideais novos, vai dar-nos, apenas, o que sempre tivemos mas nunca nos apercebemos.

O álbum contem 11 faixas: “Phase I”, “Hot Dogtor”, “F.G.S.F.D.S”, “Boo Boo Bee Boo”, “Bloodinger”, “Thupilo”, “Moe”, “Bread Pit”, “This Cake is A Lie”, “What is this” e “Long Live Bong Kong”. Com uma análise rápida aos títulos das músicas somos capazes de gracejar, mas aviso que nem por isso os devemos levar menos seriamente.

Há uma mistura imensa, uma autêntica montanha-russa, entre o rir e ficar assustadoramente alerta. Contudo, isso não o faz soar desconexo. A multiplicidade de estórias e o caos associado à agressividade da voz e dos instrumentos é, apesar de tudo, um caos organizado, uma narrativa com princípio, meio e fim bem definidos.

Phase I” é a introdução desta viagem. Estamos num bar e de repente somos abordados por um velho, à partida, bêbedo e delirante (protagonizado por um convidado, Francisco Ventura), que, num monólogo bem construído e com um toque de teatral, nos promete uma mudança abrupta na nossa vida e na forma como vemos as coisas. De forma a explicar melhor, deixa-nos esta soundtrack para pensarmos sobre o assunto.

Depois de algumas músicas, “Thupilo” aparece como uma ponte para a segunda metade do álbum (ou da revolução, dependendo do quão embrenhados estejam até ao momento). De volta ao bar, percebemos que a conversa já não é só entre nós e o velho, mas que roubou a atenção a mais uns quantos. Ainda neste momento, há um excerto de uma cena dos Simpsons que nos avisa da chegada da música que se sucede- “Moe”.

Moe” fala-nos de quem lhe dá o nome, a personagem dos “Simpsons” que gere o bar da localidade. Ou se calhar é uma faixa-tipo que fala de todos os Moes da nossa vida, as pessoas pelas quais passamos e nos esquecemos que são mais do que alguém que vive para nos servir.

Long Live Bong Kong”, por sua vez, é uma conclusão fenomenal. Nesta faixa apercebemo-nos que todo o bar já está rendido a Bong Kong e consciente de tudo o que foi denunciado ao longo das restantes músicas. Sublinho que, esta organização do álbum em partes e toda esta envolvência que melhor nos explica o conceito da banda, que funciona como um estilo de vida, é, definitivamente, um ponto a favor no que toca à originalidade que nos prometem.

A melodia, por sua vez, não só acompanha o que é pregado, como acho que também prega. Aliás, arrisco-me a dizer que entenderíamos a mensagem mesmo sem a letra. Há uma boa distribuição no que concerne ao protagonismo dado a cada instrumento.

Em “Hot Dogtor”, por exemplo, não consigo deixar de sublinhar a bateria. Já em “Boo Boo Bee Boo”, as guitarras captaram mais a minha atenção. No entanto, de forma geral, apesar de conseguirmos destacá-los em momentos diferentes, funcionam bem em conjunto. Permitem-nos apreciar cada um no seu tempo sem que se “atropelem”. Algo peculiar neste género de música.

Apesar de achar que os instrumentos não precisariam das letras para serem entendidos, não quero dizer que o vocalista não seja bom. Diogo Pardal – a título de curiosidade, licenciado em Ciências da Comunicação na UMinho e ex-redator do ComUM – transmite-nos facilmente o sentimento de revolta e vontade de pôr fim à apatia através de todo o sentimento que coloca a cantar. Influencia, portanto, positivamente, o resto da música.

Este projeto (que começou a ser delineado em 2016) e a sua produção minuciosa e detalhada proporcionam-nos uma experiência agradável e, simultaneamente, desconcertante se prestarmos atenção à intenção com que as coisas são ditas. É como se a diversão e a perturbação andassem de mãos dadas – na verdade, andam e Bong Kong entrega-nos isso de bandeja. Ansiosa por mais um álbum do qual só posso esperar não esperar nada. Só me resta dizer “Long Live Bong Kong”.