Os Camarões Brilhantes estreou nas salas portuguesas a 7 de novembro. O filme é a mais recente comédia francesa a convidar os espectadores para uma experiência algo peculiar.

A narrativa introduz a história de Matthias Le Goff, um campeão olímpico de natação que enfrenta a realidade dura do final de carreira. A sua situação complica quando profere um comentário homofóbico, em direto, numa entrevista.

Os Camarões Brilhantes

O comentário de Matthias não sai impune. Como castigo, é obrigado a treinar uma equipa LGBT+ de polo aquático para os Gay Games, um evento desportivo equivalente aos Jogos Olímpicos. Numa emocionante viagem de Paris à Croácia, o protagonista carrega a complicada tarefa de encarar os seus ideais face a uma comunidade fortemente mirada pelo ódio e excluída por uma sociedade homofóbica.

A personalidade, em parte fria, de Le Goff é expressa na visão que tem do grupo que irá orientar. De si, não exige o menor esforço para demonstrar empatia pela equipa que no balneário se prepara para a prova. Pelo contrário, a sua intenção passa por expressar a raiva e impaciência pela obrigação que lhe foi imposta, no sentido de se redimir. É inevitável o público não sentir algum distanciamento desta personagem, uma vez que procura apenas o perdão da opinião pública para poder limpar a sua imagem manchada, e não porque genuinamente se arrepende dos seus atos.

Os Camarões Brilhantes

Em contraste com a personalidade crua do campeão, surgem oito homens que procuram, na liberdade de expressão, um ponto de estável de felicidade. São oito histórias que, no núcleo das suas existências, carregam alegria e dor. Porém, apesar de estas oito vidas nas suas narrativas divergirem, têm em comum dois aspetos: a sexualidade e o polo aquático.

O público rapidamente se apercebe da impossibilidade de segurar uma genuína gargalhada. Apesar de, na sua atuação, os oito atores assumirem a homossexualidade como a característica principal dos seus papéis, não fazem dela exclusividade. A tendência de enclausurar a comunidade LGBT+ numa caixa, sem considerar a diversidade que a compõe, impera na sociedade. São seres humanos com diferentes histórias, experiências, sentimentos e personalidades, dignos de respeito por aqueles cujo privilégio diariamente os isenta do lado mais negro do Homem.

Os Camarões Brilhantes

O argumento de Os Camarões Brilhantes foi elaborado para transmitir sentimentos antagónicos. Cria-se uma impensável mistura entre a felicidade que é abraçar a nossa verdadeira entidade e a tristeza que é reconhecer a nossa existência numa sociedade que nos menospreza por sermos autênticos. É com essa incompatibilidade e incompreensão que as personagens, por meio de discursos ou atos, obrigam o público a olhar no espelho e a questionar os próprios valores.

A realização de Maxime Govare e Cédric Le Gallo introduz imagens essencialmente aquáticas, num equilíbrio de cores harmonioso e belo. O caminho visual escolhido pelos realizadores para narrar esta história alia o amor pelo desporto à descoberta do conforto das personagens numa sociedade que diariamente os renega.

Os Camarões Brilhantes é o filme perfeito para aqueles que procuram uma boa comédia para alegrar o dia. Ou até mesmo para aqueles que se reveem em Matthias e desejam desprender-se de um preconceito que, por vezes, inconscientemente atuam. É um filme convidativo de risadas, mas um lado trágico também transparece. Contudo, por meio do humor e do amor que os une, os nadadores ultrapassam os muros mais altos que a amargura da vida pode trazer.