Pão de Açúcar é um romance não ficcional que expõe um crime cruel e a tentativa de apagar supostas diferenças entre Homens. Uma história de uma vítima e dos seus agressores, num tempo marcado pelas desigualdades e discriminação.

Afonso Reis Cabral baseia o seu livro no assassinato de Gilberta Salse Júnior, uma transsexual brasileira, às mãos de jovens rapazes. Obriga o leitor a enfrentar cruelmente a realidade, a presenciar uma sociedade perversa e decadente, moldada por preconceitos, condenações e homofobia.

Pão de Açúcar é narrado através do ponto de vista de um rapazinho, Rafael, que vê a sua vida entregue a uma instituição católica e a dias resumidos ao mínimo. Um dia, Rafa é presenteado com um segredo. Este segredo oferece-lhe um propósito e muda o seu rumo enquanto individual, criança, filho e homem.

Afonso Reis Cabral - Pão de Açúcar

O autor apresenta uma escrita tipicamente portuguesa, que realça o que há de melhor e de pior na língua. As palavras enquadram-se perfeitamente nos cenários contruídos. A retidão da língua combina com a amargura e com a aflição que se deseja transmitir.

As personagens são simples, feitas aos olhos do que é real. Consegue detetar-se a pureza e a autenticidade humana no modo como são descritas, como agem e como sobressaem.

A obra conta com uma narrativa doce e firme, que magnetiza o leitor. Dela sobressai uma linha reta de acontecimentos, que conduz desesperadamente ao ponto principal da história. Como auxílio de compreensão, são ainda cedidos ao leitor capítulos que o ajudam a encontrar uma explicação para os acontecimentos e a enquadrar-se na história.

Pão de Açúcar fascina e exaspera com a crueldade humana e com a tentativa de fazer florir algo afável e bom num mar de desprezo e indiferença. O leitor depara-se com uma existência sórdida e impiedosa, com mensagens severas daquilo que a humanidade é. E, para além disto, ainda encontra provas de ingénua benevolência e amor.