Ainda em fase de maturação e de resolução de muitas diferenças criativas, os Coldplay escolheram o dia 10 de julho de 2000 para apresentar o seu primeiro álbum ao mundo. Num ano recheado de boa música, o quarteto londrino optou por marcar pela diferença, ao investir num disco predominantemente Rock Alternativo, mas com um intenso aroma Pop à mistura.

Seja pelas letras carregadas de sentido, pela beleza dos vocais de Chris Martin, ou pela sonoridade agradável, mas ousada de todas as faixas, Parachutes espelha uma abordagem diferente ao conceito de Rock, revelando uma faceta mais romântica, poética e melancólica do mesmo.Parachutes surge como o primeiro grande trabalho do quarteto londrino, numa altura em que, no seu histórico, apenas constavam três EP’s que não fizeram grande furor no panorama comercial.

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Um ano depois da assinatura do contrato com a gravadora Parlophone, que já tinha trabalhado com nomes quase sagrados da música, como os Queen, os Beatles ou os Pink Floyd, os Coldplay revelaram a ambição necessária para dar o passo seguinte e levar a cabo o seu primeiro projeto de peso.Ainda assim, adivinhava-se difícil conquistar um espaço de relevo junto dos aficionados da música.

Em julho, mês que viu nascer Parachutes, já o ano de 2000 se mostrava muitíssimo interessante no panorama musical, com lançamentos bem-sucedidos de Pearl Jam, Bon Jovi ou Queens of the Stone Age.  Apesar de tudo, Chris Martin, Jonny Buckland, Guy Berryman e Will Champion puseram mãos (ou instrumentos) à obra, durante meses a fio, e o resultado foi extremamente satisfatório, apesar das circunstâncias difíceis em que foi desenvolvido.

Nas palavras de Ken Nelson, produtor que auxiliou a banda em todo o processo, o disco pretendia ser “o mais orgânico possível”. Mas, na verdade, o que surgiu foi um aglomerado de 10 faixas, em que cada uma se desenrola como uma pequena história com especificidades individuais. Amores fracassados e outros bem-sucedidos, demónios interiores e perspetivas positivas da vida são alguns dos ingredientes que constituem o verdadeiro milkshake temático que é Parachutes. A grande abrangência de temas permite que cada ouvinte escolha identificar-se com aquilo que lhe é mais direto e refletir sobre isso mesmo.

Parachutes inicia-se com uma das suas faixas mais famosas e, simultaneamente, mais bonitas. “Don’t Panic” surge, neste registo, como uma versão melhorada da que figurava no EP, The Blue Room, lançado um ano antes. Em pouco mais de dois minutos, a música transmite toda uma mensagem de auto-confiança e de otimismo para quem a ouve, ilustrada num refrão muito viciante e facilmente decorável. Nesta faixa, importa destacar os vocais de apoio de Will Champion, baterista, e Jonny Buckland, guitarrista, cujas “vozes de fundo” conferem à canção um efeito bastante interessante.

Segue-se a vibrante “Shiver”. Lançada como primeiro single do disco, a canção começa com um instrumental rápido e pesado, com que logo abranda para dar espaço ao vocalista. Toda a letra pode ser interpretada como um triste desabafo de alguém que vive uma paixão não correspondida e, aparentemente, sem grandes esperanças de sucesso.  Isto verifica-se logo nas primeiras palavras da faixa: “So I look in your direction / But you pay me no attention, do you?”. O lamento do artista tem o seu apogeu no interrogativo refrão “Don’t you shiver?”, cantado por Chris num dos seus característicos falsetes.

Com “Spies”, somos convidados a refletir acerca dos demónios interiores, dos medos e das paranoias que teimam em assombrar os nossos dias, reflexão essa que tem como mote a questão do verso, “How do you live as a fugitive?”. Em alguns dos versos, como “The spies came out of the water” e “The spies hide out in every corner”, entendemos que a presença dessas inseguranças é constante e muito difícil de anular e que acabamos, invariavelmente, por ser “fugitivos” de nós mesmos, no decurso da nossa própria existência. Apesar de a sonoridade não ser das mais bonitas, penso que é seguro afirmar que “Spies” apresenta uma das melhores letras do disco.

A vibe melancólica repete-se em “Sparks”, cuja letra soa a uma promessa de mudança, em tom de desabafo. Em “I know I was wrong / I won’t let you down”, o vocalista assume o mea culpa e promete não voltar a magoar a pessoa amada, possivelmente afetada por alguns erros do passado. Toda a narrativa é acompanhada por um instrumental fantástico, que se mantém contido e tranquilo desde o primeiro segundo até ao último.

Segue-se a canção que, certamente, terá tido maior importância na projeção do disco e da própria banda, naquele tempo. Logo nos 33 segundos de instrumental que dão início a “Yellow”, um sentimento genuíno de felicidade entra-nos pelos ouvidos e espalha-se por todo o corpo, como se de terapia se tratasse. Toda a letra parece saída da mente de um verdadeiro poeta, de tão bela que é. O modo como Chris Martin a canta dá a ideia que o ouvinte é o destinatário de versos tão belos como “Look at the stars / Look how they shine for you” e “Your skin / Oh yeah, your skins and bones / Turn into something beautiful” ou “For you I’d bleed myself dry”.

Num registo minimalista, com um piano acompanhado por batidas suaves de bateria, “Trouble” surge com uma mensagem muito semelhante à de “Sparks”.  O vocalista percebe que falhou e promete que as suas más ações não passam de erros irrepetíveis, tal como rezam os versos: And ah well if I ever caused you trouble / Oh, no I never meant to do you harm”.

Em seguida, temos a faixa homónima do disco. “Parachutes” surge como um pequeno interlúdio, de apenas 47 segundos, em que o frontman faz uma jura de amor eterno, ao som contido da guitarra.  Antecede a oitava canção, que dá pelo nome de “High Speed”. Tal como aconteceu com “Don’t Panic”, foi repescada do EP de 1999 e listada como parte integrante de Parachutes. Apesar de a letra não ser facilmente interpretável nas primeiras escutas, creio que se pretende criticar a tendência humana de viver dentro de uma bolha e a necessidade de ter cuidado com a efemeridade da vida.

Sucede-se “We Never Change”. Com uma sonoridade e vocais que fazem lembrar a “Fake Plastic Trees”, do álbum The Bends, dos Radiohead, esta canção gira em torno daquilo que, aos olhos de muitos, seria o ideal de uma vida feliz e despreocupada: “I want to live life / Never be cruel”; “And live my life / And have friends around”.

E é com toda esta conceção de carpe diem que chegamos à faixa final. “Everything’s Not Lost” encerra o disco com chave de ouro, com o piano a voltar a assumir um papel de relevo. O próprio nome da canção deixa antever uma mensagem similar à de “Don’t Panic”, o que se vem a confirmar no refrão: “If you ever feel neglected / If you think that all is lost / I’ll be counting up my demons, yeah / Hoping everything’s not lost”.

No final da faixa, e após quase 20 segundos de silêncio absoluto, somos surpreendidos com uma espécie de “faixa escondida”, onde a voz de Chris Martin e o dedilhar de uma guitarra se conjugam para algo que se assemelha a uma mensagem de despedida. “No I never meant / To do you wrong / That’s what I came here to say” é cantado quase como se o vocalista se tivesse esquecido de o dizer anteriormente. A “canção dentro da canção” prolonga-se por mais um minuto e meio, até terminar efetivamente.

Na minha ótica, o Parachutes é o melhor álbum alguma vez elaborado pelos Coldplay e, sem sombra de dúvida, um dos melhores que já tive a oportunidade de escutar. Junto de grande parte dos admiradores da banda, grupo em que me incluo, este disco é considerado o mais honesto reflexo do seu ADN, quase como se os Coldplay do início do milénio fossem “os verdadeiros Coldplay”. Nos discos seguintes, verifica-se que a rendição do grupo à onda pop e às maravilhas do comercial e do mainstream ganha cada vez mais força. Ainda assim, nada será suficiente para fazer esquecer a importância de Parachutes.