A poucas horas de se ir às urnas para votar nos diferentes órgãos da Associação Académica da Universidade do Minho (AAUM) a pergunta volta a ser a mesma: terá a abstenção a esmagadora maioria nestas eleições? Muito provavelmente, uma vez que a abstenção é um problema crónico em Portugal e a nossa academia não passa ao lado.

Marcadas para dia 3 de dezembro, as eleições da AAUM estão a dar que falar. Com apenas uma lista a concorrer à Direção, a concorrência é pouca para a tão estimada abstenção. Todos os anos se tenta apelar ao voto e a uma comunidade académica mais participativa e interessada nos assuntos da Universidade, mas os resultados anuais não deixam dúvidas que os alunos pouco se interessam por isso.

As eleições europeias e legislativas deste ano também não deixam mentir. Para o Parlamento Europeu a abstenção dos portugueses foi de 69.3% e para a Assembleia da República a percentagem ficou nos 51.4%. Dados preocupantes que os meios de comunicação fazem questão de nos transmitir, após as noites eleitorais. No entanto, nem a exposição desses valores consegue ser agente de mudança.

Sabe-se que os jovens também se abstêm muito nas decisões políticas, e isso começa a ser alarmante. Pensava eu que a minha geração ia seguir as pisadas dos progenitores e ter o “hábito” de tirar 30 minutos a um domingo para cumprir o direito e dever que um cidadão ativo deve ter. Pensei que era algo que se passasse de geração para geração, de forma a que o direito de voto ficasse sempre assegurado. No entanto, há alguma lacuna aqui.

Ou os pais cada vez se interessam menos pela política, seja ela nacional ou internacional, e também não votam, o que corta o elo de transmissão aos filhos, ou não há qualquer interesse pela minha geração em ir votar. Levante a mão quem já não ouviu a típica frase “É sempre o mesmo partido a ser eleito, que diferença vai fazer o meu voto?”. É o pão nosso em tempo de eleições.

Contudo, foi-nos dado o direito de votarmos livremente. Porque haveríamos de menosprezar esse direito que tantas vidas custou? Não devíamos, mas o que acontece é que nos damos ao luxo de simplesmente não irmos votar. Ou porque a preguiça é muita, ou porque está um dia de sol incrível e ninguém está para se incomodar e ir votar, ou porque simplesmente não sabemos em quem votar. A verdade é que vivemos numa era de total desinteresse político em que nos acomodamos com o que é decidido e somos autênticos bonecos maleáveis para aqueles que têm o poder.

Retomando o assunto das eleições da AAUM, o panorama é o mesmo. O desinteresse dos estudantes sente-se a léguas. A existência de apenas uma lista candidata à Direção reflete também esse desapego por qualquer assunto ligado à Associação Académica. Não há interesse em mudar e fazer melhor.

Com uma taxa de abstenção de 84.3% nos últimos dez anos, o cenário é previsível. A abstenção vai continuar elevada e nada se tem feito para alterar isso. Assim como na política nacional e internacional, o apelo ao voto para as eleições académicas pouco ou nada tem efeito nos alunos. De tantas coisas que ocupam a vida dos estudantes, muitas delas fúteis, porque se haveriam eles de interessar em acompanhar as listas candidatas e até mesmo ir às urnas no dia 3 de dezembro? Desde que o presidente eleito assegure as Monumentais Festas do Enterro da Gata, “‘tá tudo fixe”. Pois, para muitos, a AAUM deve ser sinónimo de festa. Mas enganam-se.

A Associação Académica da Universidade do Minho foi criada com o objetivo de responder às necessidades dos alunos, sendo a estrutura que representa os estudantes da UMinho. Por isso é crucial votar em quem tenta fazer a diferença e quem realmente quer ouvir os estudantes e, igualmente, dar uma voz ativa aos mesmos. Seja votar numa lista – para a Direção, a mesa da Reunião Geral de Alunos, ou o Conselho Fiscal e Jurisdicional -, ou votar em branco – caso nenhuma das opções agrade -, o importante é votar, sempre.

No entanto, admito que seja necessário criar mecanismos para os estudantes terem uma participação mais ativa nos assuntos da academia, pois dizem respeito a todos. Porém, que mecanismos foram criados até agora? Apesar do desinteresse ter sido notório nas eleições europeias e legislativas de 2019, penso que, numa comunidade mais próxima como é o caso da Universidade do Minho, isso pode ser diferente. Basta cativar as pessoas.

Vivemos no milénio das tecnologias, disso ninguém discorda. Todos os dias somos bombardeados por imenso conteúdo. Não despegamos os olhos do ecrã. Teclamos tão rápido que nos parece inato. Mas tudo isso porque assim a tecnologia o permitiu. Por isso, por que não implementar, de uma vez por todas, o voto eletrónico nas eleições da AAUM?

Apesar da plataforma estar criada – o eVotUM – e já ter sido utilizada pela Universidade do Minho nas eleições para o Conselho Geral, ainda não vai estar a funcionar nestas eleições da Associação Académica. A minha opinião é que, com esta plataforma interativa e de uso intuitivo, mais gente se sentirá convidada a votar. É uma ação que nem deve durar cinco minutos, e isso é o que todos querem. Algo que seja fácil e rápido, não é? No entanto, teremos de esperar mais um ano para ver se a plataforma fica operacional em futuras eleições da AAUM, por isso, este ano, as clássicas urnas vão continuar por perto.

Se a abstenção nas eleições da AAUM é um reflexo da apatia social em que vivemos? Sim. Se podemos mudar isso? Claro que sim. Dia 3 de dezembro as urnas estão à nossa espera, nos sítios do costume (CP2 de Braga, nave central do Campus Azurém, Escola de Ciências, Escola de Medicina, Couros e Congregados). Só nós, estudantes, é que podemos ser agentes da mudança numa casa tão nossa como é a Universidade do Minho. Por isso, esta terça-feira, tira dez minutos entre as 09:00 e as 20:00 e vai votar. Porque depois de fechadas as urnas não vale a pena reclamar.