“Estamos a chegar ao ponto de que se tu queres fazer música não podes fazer apenas música.”

Omie Wise é uma banda de rock progressivo de Braga. A banda tem a génese em 2014, sendo que o primeiro EP, 1808, foi lançado em março de 2017, gravado, produzido e masterizado pela banda. Em setembro de 2019, o grupo bracarense lançou o álbum To Know Thyself. O ComUM foi até à Junta de Freguesia de Merlim de São Pedro, local onde ensaiam há vários anos, para saber um pouco mais sobre a história do projeto, dos respetivos membros e as novidades que 2020 “trás na manga”.

ComUM – O vosso primeiro EP “1808” foi lançado em 2017, no entanto, o projeto Omie Wise foi sonhado muitos anos antes. Como foi o processo até chegarem ao line-up que têm hoje?

Fábio – A banda começou comigo e com o Rui Brito. Entrou um baixista, Marco Ribas, entrou o Zé, depois o Eduardo. Depois o Marco foi embora e veio o André Rigoto, que tocou saxofone neste último álbum. Depois o André foi embora e veio o Slayer. Entretanto, entrou o Jonas, depois saiu o Rui, que eles ainda se conheceram, depois entrou o Gustavo, depois o Gustavo foi embora e ficou este line-up (Eduardo Almeida, Fábio Pinto, João Machado, José Martins e Miguel Santos).

 

ComUM – A vossa música tem influências muito diversas, o que faz com que surja um cocktail musical repleto de intensidade, texturas e dinâmicas muito interessantes. Vocês têm gostos musicais parecidos ou são todos muito díspares?

Eduardo – Sim, nós, lá está, temos gostos muito diferentes, embora isso seja compatível no nosso circo.

Zé – Nós fizemos o que nós chamamos um retiro de composição, foi o segundo que fizemos para finalizar as produções para o álbum. Basicamente, um formato de cinco dias mais intensivos e fizemos um exercício que era tentar encontrar uma banda em comum no top 10. Foi no top 10 que sacamos The Doors?

Fábio – Não, foi no top 20. Mas já foi um bocado…

Zé – Ok, The Doors no 20 encaixa para todos.

Fábio – Houve um gajo que disse que não gostava de Pink Floyd. Acho que foi o Zé…

Zé – Eu nunca disse que não gostava de Pink Floyd, calma lá, não conheço muito bem. A cena é que eu tenho de estar no momento certo para ouvir aquilo, como estive com Led Zeppelin e Queen. Eu sei que a qualidade é tremenda naquelas bandas, mas se eu não estiver no mood certo… Ok, não obstante, eu sei que tenho na minha to-do list ouvir Pink Floyd, mas apesar dessa diferença enorme… Nós acabamos que, forçosamente, ter de meter um género naquilo que fazemos, mas rock progressivo é uma mixórdia de montes de coisas. Progressivo, à partida, é uma mixórdia, quase que podias substituir a palavra.

Jonas – É assim que tu defines a nossa banda? Rock Mixórdia? (risos)

Fábio – Título da entrevista: Omie Wise, Rock Mixórdia de Braga. (risos)

Zé – Mas é essencialmente isso, aquilo é o resultado da colaboração de cinco gajos que têm influências musicais e backgrounds bastante diferentes no contexto em que somos todos de Barcelos ou de Braga. E o resultado final é um bocado isso, tem um bocadinho de cada, por isso caracterizar aquilo num género é extremamente difícil. Nós tentamos fazer esse exercício e não conseguimos, falhamos redondamente.

Fábio – Eu gosto daquele estilo que o Jorge nos dá, o Jorge é uma das pessoas daqui, que é Emotionally Dangerous Rock.

 

ComUM – Vocês são a favor da estipulação e consequente atribuição de géneros musicais? Na medida em que estes podem reduzir o trabalho do artista a um único rótulo?

Eduardo – Acho que tu tens de ter uma maneira de identificar as coisas, não só no sentido prático, não é, porque às vezes tens de categorizar só para organizares as coisas. Eu para puder ter uma discografia eu não vou pôr Beethoven ao lado de Bee Gees, tenho que pôr a parte do clássico…

Fábio – BB, estão perto.

Eduardo – Foi por isso que eu falei nesses dois exemplos. O que eu quero dizer é que, por uma razão prática, tu tens de rotular as cenas, ou tens de categorizar.

Zé – Eu acho que ao final do dia, a sensação que eu tenho é que os géneros foram criados para os consumidores e não para os artistas, por isso é que não me surpreende quando os artistas não se identificam, como nós, necessariamente, com um género. Mas, para bem do consumidor, porque é mais fácil para ele categorizar, filtrar, procurar, existem essas categorizações, é um bocado por aí. Agora, não conheço nenhum artista que dissesse que estava feliz com a categorização musical do que fazem, até porque amanhã podem decidir fazer outra coisa.

Slayer – A não ser que sejas um artista muito ortodoxo. Por exemplo, no caso do Black Metal tens pessoal que diz “ah, tem de ser sempre Black Metal, nunca vou sair deste nicho”. Mas isso são fundamentalistas.

 

ComUM – O que é que têm a dizer sobre a indústria musical em Portugal? Consideram ter mudado bastante comparativamente com aquilo que era há dez anos atrás?

Jonas – Estamos a chegar ao ponto de que se tu queres fazer música não podes fazer apenas música, no panorama atual.

Slayer – Acho que se tivesse de sintetizar a diferença do país há dez anos para trás é basicamente o que ele disse. Um músico, hoje em dia, tem aquela parte de social marketing, de dares um pouco a conhecer a tua personalidade. Existem inclusive músicos que entram naquela onda de ser youtubers e que interagem bastante com as pessoas. Eu vejo inclusive bandas que já existem há dez ou mais anos cada vez mais a entrar nesse paradigma. Mesmo por parte de músicos que já têm projetos consolidados há dez/vinte anos, nos últimos três/quatro anos tem-se notado bastante uma maior adesão para entrar nesses meios para dar a conhecer o seu som ao público.

 

ComUM – Consideram que por o rock progressivo ser um estilo menos procurado vos dificulta numa maior afirmação a nível nacional?

Slayer – Posso ser honesto? Complica bastante, porque é um estilo muito nicho, hoje em dia, não é só cá em Portugal, mas diria que cá em Portugal não há muito o interesse, por parte do público, em ouvir rock progressivo. Portanto, isso também se tem refletido um bocado nas dificuldades que nós temos em arranjar concertos, em divulgar o nosso som.

Eduardo – Até mesmo no rock, acho que em geral o rock está em decadência. Hoje em dia, a eletrónica é muito mais forte do que era há 15 anos atrás. Nos anos 90, era o rock em todo o lado e agora não. Há grandes bandas a ser cabeça de cartaz de rock, mas a esmagadora maioria não é de rock. E pronto, nós temos outras influências não só de rock, seja de folk ou pop, mas é isso que dificulta mais o chegar a um público mais mainstream.

                        

ComUM – E de que maneira é que gerem isso? Acham que se torna um entrave ao nível criativo ou o que conta mais é fazer música independentemente do número de pessoas a que vai chegar?

Eduardo – Sim, acho que tu tens de ser o mais genuíno possível, fazer aquilo que tu queres fazer com a maior criatividade que conseguires depositar.

Fábio – Também a vantagem de nós não estarmos dependentes do projeto para pagar uma renda no final do mês. Nós temos um projeto e isto é a música que queremos fazer. Acho que ninguém sente uma necessidade de chegar a um lado ou agradar a alguém, isto é tipo um playground para nós.

Zé – Claro que é sempre fixe ver reconhecimento disso, embora seja mais reduzido, mas ainda sabe melhor quando alguém reconhece aquilo que nós fizemos, por carolice nossa, não é? Tipo juntamo-nos tantos anos nesta sala de ensaios, que é fria como podes ver e o verão também costuma ser um bocado moroso, a vir tempo a fio para aqui, a tentar chegar a um acordo entre os cinco, o que é bastante difícil e compor isto e depois, ok, nós estamos satisfeitos com o produto e é claro que é importante para nós, mas depois, quando as poucas pessoas que sejam reconhecem isso, acho que o valor também é bastante mais significativo.

 

ComUM – Qual é o vosso processo criativo? Costuma surgir primeiro o instrumental ou a letra?

Fábio – Acho que não houve nenhuma música em que a letra surgisse primeiro que o instrumental, por isso acho que podemos dizer que primeiro há uma base instrumental, que normalmente sou eu que arranjo em casa, trago as ideias já mais ou menos organizadas, para depois nós aqui começarmos a trabalhar em cima dessa base e transformar numa música os cinco.

 

ComUM – Vocês costumam trazer individualmente ideias e depois partilham uns com os outros tentando construir algo a partir daí, ou normalmente és sempre tu que fazes os arranjos, Fábio?

Fábio – Depende, muita da música de Omie Wise tem início com guitarra, mas já chegou a acontecer ouvir o Eduardo a tocar qualquer coisa que me agrada e roubo para uma parte qualquer ou então qualquer coisa que o Jonas está a cantar ou um beat do Zé ou um detalhe qualquer do Slayer. Às vezes, há pequenas coisas que eu agarro e trago para essa base. Normalmente, é mais nesta linha, acho que não temos nenhuma música que tivesse surgido de uma forma menos estruturada do que esta. A não ser que possa surgir assim um pedaço que nós até gostamos de um jam, depois há sempre o processo de eu ir lá para casa e arranjar aquilo de alguma forma e depois vir para aqui outra vez.

 

ComUM – E quem é que costuma escrever?

Fábio – Sou eu também.

 

ComUM – É bastante interessante integrarem a braguesa nos vossos sons. É um instrumento que remete ao século XVII, que acaba por cair um pouco no esquecimento e vocês resgatam-no, de certa forma. Como é que perceberam que fazia sentido em To Know Thyself, sendo que está aliada a sintetizadores?

Eduardo – Acho que, a dada altura, não sei porquê, havia um fascínio da minha parte e depois também do Fábio sobre o instrumento. O facto de ser bracarense, e havia um disco do B Fachada que era só com a braguesa e ele tirava um som tão bonito daquilo. Na altura, ainda estava o Rui, o nosso primeiro/segundo guitarrista, e ele tocava numa tuna e trouxe uma braguesa da tuna e começamos a experimentar.

Zé – Ele gravou para aí 30 segundos de uma música.

Eduardo – Sim, era só um apontamentozinho de nada.

Zé – Literalmente, ele levou-a para casa numa sexta, gravou no sábado e levou-a para lá outra vez.

Eduardo – Entretanto, o Fábio decidiu investir e comprar uma braguesa e depois daí, ele em casa teve o trabalho de descobrir o instrumento e de desenvolver a técnica necessária e começou a trazer para os ensaios e pronto, também composições já na braguesa. Se calhar não foram os sintetizadores que se conjugaram com a braguesa, foi a braguesa que se veio conjugar com os sintetizadores.

Fábio – Esta braguesa tem ano e meio e a banda tem cinco ou seis. Não esteve sempre cá, é uma ambição mais recente, apesar de ter estado na nossa cabeça há algum tempo.

 

ComUM – Algo que vos distingue em termos de imagem é a máscara do Jonas. Qual o efeito que pretendem criar com a mesma?

Jonas – É um elemento tuga, tal como a braguesa e a pera do Zé…

Zé – Isto é bué português…

Jonas – Reflete também uma das personagens do álbum, mas sim, é uma forma de dar um bocado de peso à componente lírica da banda, mesmo no próprio espetáculo.

Eduardo – Eu acho que a ideia da máscara, confesso, vem muito do Peter Gabriel no Genesis. Ele fazia um teatro e tinha imenso vestuário que ele usava durante os concertos e, na altura, quando começamos a pensar nisso, chegamos a pensar em falar com uma amiga nossa que faz trabalhos manuais em geral, não faz máscaras, mas chegamos a pensar em encomendar uma máscara. E depois surgiu a ideia de procurar máscaras típicas portuguesas na internet e encontramos um site que vendia.

Fábio – Há uma parte super gira. O Eduardo encontrou o site e mandou ao Jonas, tipo escolhe, e o Jonas super entusiasmado: “ei máscaras, boa ideia” e tal. Depois ele mandou vir e pensou que toda a gente ia ter uma.

Jonas – Não foi propriamente barata…

Eduardo – Até é uma cena que está a surgir um pouco por outras bandas portuguesas. A Catarina – Emmy Curl – fez um videoclip agora que também tinha uma máscara dos Caretos e isso é porreiro. Acho que é um bocado pegar na nossa cultura, que não seja diretamente a nossa porque nós somos de Braga, se calhar a nossa cultura mais direta tem a ver com a braguesa, mas portugalidade em geral é sempre uma coisa que é bom ter.

 

ComUM – Já têm concertos marcados para 2020?

Fábio – 11 de janeiro em Aveiro.

Jonas – Não digas 18 que foi cancelado.

Fábio – Ok, não sabia disso. 11 de janeiro no GrETUA.