To Know Thyself é o projeto mais recente da banda bracarense Omie Wise. Apareceram em 2017 com o EP 1808 e voltaram em setembro de 2019 com um álbum que promete. O workart da capa deixa antever o desenvolvimento de uma ideia complexa e sombria mas com apontamentos de cor.

Eduardo Almeida, Fábio Pinto, João Machado, José Martins e Miguel Santos são os cinco elementos que se juntam para nos levarem numa viagem. O destino parece incerto. Os 55 segundos iniciais são misteriosos e acabam de forma abrupta. “One, No One and One Hundred Thousand” sabe a pouco e deixa-nos intrigados. A segunda faixa aguça a curiosidade

Omie Wise

Inês Batista/ComUM

Dead Wings Fly Higher, PT.1” começa com braguesa e cresce. É subtilmente melancólico e parece vir de um lugar escuro durante dois minutos e 50 segundos. Acalma e a braguesa volta feliz. É uma viagem incerta, diria. Volta mais leve e aberta – terá a tempestade passado?

A resposta é não. Os dez minutos seguintes são “Umbra”. A luz falta e ficamos sozinhos, em silêncio e às escuras. As sombras perseguem-nos sob a forma de pianos. É calmo no início e atinge picos psicóticos nos entretantos. A voz solta frases que são deixadas a ecoar num pano de fundo circular e inquietante.

Quebra a meio e o quinteto volta. Não feliz mas num tom baixo que acalma. A braguesa volta a dar o ar de sua graça e voltamos a ser levados para um lugar mais sombrio mas ainda assim aberto. O som de fundo é hipnótico e leva-nos pela mão numa viagem pelos pensamentos. Uma curta pausa catapulta-nos novamente para um lugar mais fechado e pesado.

Make a Knot” surge como um raio de luz. Soa simples e leve. Não fosse a voz e diríamos que estávamos a ouvir uma banda diferente. Foi lançada como single e deixou-nos com a ideia errada do que seria o projeto. É, no entanto, um apontamento preciso – e traduz-se em linguagem visual na parte colorida do work art da capa do projeto.

Something Wicked Stands Behind Me” tem uma introdução viciante. Os três primeiros minutos passam a correr e perseguem-nos para depois nos voltamos a sentir fechados. “Rid my mind” é repetido de forma misteriosamente obscura até ao final da faixa.

Dead Wings Fly Higher, PT.2” repete a fórmula, contudo parece ser mais densa. Encerra, de certa forma, a viagem que temos vindo a seguir pelas vísceras mais intimas – ora as da banda, ora as nossas. O instrumental conduz de forma progressiva ao silêncio na parte final e volta a deixar-nos numa nota colorida.  

A música final é a que dá nome ao projeto. Tal como “Make a Knot”, “To Know Thyself” surpreende pela luz que traz. É talvez a faixa onde a letra tem mais destaque – por ser cantada de início a fim. “Could you see then what I feel now? /You may come and take me /I shall wait here” é como o projeto termina. É como que uma afirmação da descoberta. Todos os momentos anteriores estão assimilados e fazem sentido – agora esperamos que outros o entendam.

O conceito do projeto traduz-se numa lírica sublime e bela, presente em praticamente todas as faixas mas a sonoridade agarra de tal forma que é fácil perder ideia do que está a ser dito. Não são desnecessárias porque completam e guiam o ouvido, mas perdem-se. Quem sabe talvez seja essa a ideia.