City Morgue é um coletivo de Industrial Hip-Hop e Trap Metal composto pelos dois rappers mais agressivos do género musical, ZillaKami e SosMula, com produção de Thraxx. AS GOOD AS DEAD é o segundo álbum em que colaboram e, embora seja uma obra sólida, fica aquém das expectativas e sofre de alguns dos problemas do primeiro projeto

O primeiro, HELL OR HIGH WATER, lançado em 2018, marcou qualquer pessoa que o tenha ouvido: uma imparável agressividade sonora com letras e, especialmente, hooks que trazem o lado mais animalesco do Hip-Hop. Atualmente, o que não falta são grupos e artistas de Hardcore Hip-Hop que misturam aspetos do Metal, como guitarras, grunhidos e blast beats. Ghostemane, Rico Nasty, Lil Gnar são alguns destes exemplos.

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Os City Morgue destacam-se como um escaldão na pele. Criam um ambiente hostil, inóspito, num estilo de “Nós é que mandamos aqui e vamos mostrar isso”. O que lhes falta em termos líricos e conteúdo emocional é compensado com instrumentais de outro mundo e vocais que assustariam até o gangster mais temido.

Em AS GOOD AS DEAD temos uma mudança no modus operandi com que City Morgue ficou conhecido. Sim, as faixas agressivas continuam bem presentes. A performance de ZillaKami e SosMula continua a ser selvagem e Thraxx formula beats destrutivas. No entanto, agora temos faixas mais “híbridas” que se viram para um lado mais emocional e introspetivo. Falarei delas mais à frente.

Tudo começa com “Neck Brace”, onde ZillaKami e SosMula interpolam um dos clássicos de Death Grips, “Guillotine”, sobre um instrumental abrasivo de Trap composto por Thraxx. Só os primeiros 30 segundos sugerem como vai ser o resto do álbum – dos 0 aos 100 numa fração de segundo.

Letras como “1, 2, 3, 4 Death! Break yo’ fucking neck” ditam tudo. A faixa seguinte, “Inferior”, fala como eles são melhores que a competição. E, claro, os hooks de ZillaKami são impossíveis de tirar da cabeça.

Draino” é a primeira faixa que desacelera o álbum. Com a colaboração de Denzel Curry, City Morgue retrata os momentos baixos da vida e como, muitas das vezes, as pessoas recorrem à automedicação – quer seja através de drogas, comprimidos não prescritos, álcool e/ou tabaco. O flow de cada artista é impecável, principalmente o de Denzel Curry, que retrata a insignificância que sente apesar do seu sucesso.

The Give Up” continua neste ritmo calmo e introspetivo. O tema retratado pela dupla é, desta vez, o suicídio e a dificuldade em procurar ajuda. Isto tudo é representado sobre um instrumental quase acústico.

Na quinta faixa, “Thresh”, Thraxx traz de volta as bangers e os punhos no ar. O instrumental parece retirado de um filme de terror e quando entram os clássicos hi-hats de Trap sabes que ZillaKami vai entrar a matar. Até hoje digo que ele é um dos melhores artistas para este tipo de refrões, incomparável, no mínimo. A energia que transpõe faz qualquer um abanar a cabeça e gritar as letras. Apesar da parte de SosMula não acompanhar muito o ritmo da faixa, os vários ad-libs espalhados durante esta curta música assentam satisfatoriamente e tornam a experiência mais agradável.

A faixa “Splinter” fala sobre matar “snitches” – bufos – sobre um instrumental arrepiante. Os 808’s, o baixo distorcido, o synth escondido por baixo destas camadas abrasivas, que tornam a música ainda mais amedrontadora, são já caraterísticas reconhecíveis em quase todas as faixas de City Morgue.

Minimizya” conta com a participação de IDK, que transfere um ar mais fresco ao álbum. Um novo ritmo e flow, seguidos por um refrão mais calmo de Zilla ao som de um riff lento de guitarra e uns snares fazem desta faixa a minha preferida, no espectro das mais “calmas”.

The Balloons” é quando começo a sentir que estas faixas mais emocionais começam a cansar. O auto-tune de SosMula é dos piores momentos do álbum. Retira qualquer intensidade e seriedade quando fala sobre os seus problemas emocionais. Zilla consegue salvar um bocado a faixa com o refrão (tal como eu disse, ele nunca falha neste aspeto).

Com “Soul Burn” voltamos à matança. Começa, imediatamente, com um baixo severamente distorcido (que é sempre um guilty pleasure meu, não minto). Este momento a solo de SosMula é dos mais curtos do álbum, com apenas um minuto e meio de duração. Ao contrário da última faixa, ele aqui não desilude. Tem versos poderosos, ad-libs e samples de tiros que funcionam perfeitamente para a atmosfera energética que transmite.

O momento a solo agora é de ZillaKami com “16 Toes”, que fala sobre manter-se forte apesar das adversidades. O instrumental é, basicamente, uma música de Rock pesado, claro, com elementos de Trap misturados pelo meio. Enquanto a faixa seguinte “Woah” me tenha surpreendido na primeira vez que a ouvi – o coro é uma intoxicante repetição do título -, quantas mais vezes eu ouvia menos eu gostava. City Morgue não é conhecido pelo conteúdo lírico das suas letras. Mas esta consegue ter ainda menos que o habitual. Passava bem sem a existência desta.

As duas faixas a seguir, “Dirt Nap” e “C4”, são duas bangers seguidas. Na primeira, temos, novamente, um instrumental que funde Metal (com um riff pesado) com o Trap. ZillaKami grita a pulmões plenos e transmite o seu lado mais agressivo. Chega a um ponto em que está quase a fazer guturais enquanto fala sobre “dirt naps”, ou seja, matar alguém e enterrá-los. Há uma parte em que o flow de Zilla relembra bastante o refrão de “Praise The Lord (Da Shine)” de A$AP Rocky, o que achei curioso. Em “C4”, Zilla e SosMula falam sobre causar o caos e motins, enquanto são acompanhados por mais um excelente instrumental de Thraxx.

Babywipes” vai e vem num instante, com apenas um minuto e 24 segundos. O conteúdo da música, posto de forma breve e não muito explícita, é basicamente ter sexo com “a tua lady” à frente do teu bebé. Depois do ato ter findado proceder à limpeza com “babywipes” do teu próprio bebé. E sim, fala-se de violência pelo meio, obviamente. Não é das mais marcantes do álbum, mas também não há espaço temporal para isso acontecer.

Chegamos às últimas três faixas. A este ponto sinto que os problemas que o Vol 1. tinha ressurgem neste álbum. O impacto que a primeira metade de AS GOOD AS DEAD transmite parece dissipar-se agora. Talvez porque começa a ser maçudo ouvir o Zilla a gritar-te ao ouvido sobre o mesmo tipo de instrumentais. O refrão, que costuma ser constantemente o ponto forte do coletivo, não provocou vontade de esmagar o punho contra a parede em “Mouthgard”. O que, a meu ver, é algo mau, tendo em conta a estética agressiva e sem piedade caraterística do coletivo.

Em “Screaming At The Rain”, voltamos para mais faixas calmas e depressivas. Uma leve guitarra acústica coberta por baixos distorcidos e hi-hats acompanham os artistas enquanto abordam estes temas. E, por fim, talvez um dos momentos mais desapontantes do álbum em si, “Peeling Scabs”.

Estava à espera de algo que me desse vontade de ouvir de início o álbum, que me “picasse”, me fizesse gritar os refrões e saltar da cadeira onde estou sentado agora. Mas era apenas mais uma faixa serena. Não é má em si. Mas, comparando a última faixa do álbum anterior – “Sk8 Head” – que nos deixa com o verso “We’ll leave it at that, motherfuckers, say your prayers!”, deixa muito a desejar.

Para City Morgue elevar a fasquia do debut deve ter sido difícil. Começaram de forma absolutamente brutal, sem piedade, sem “máscaras”. Aquilo que ouvimos é o que eles sentem: a raiva, a violência. Zilla e Sos mantiveram a sua agressividade caraterística. No entanto, sinto que melhoraram em termos conceptuais e técnicos. O maior problema de Vol. 1 era a sua dimensionalidade, ou melhor, a falta dela. Em Vol. 2 não temos tanto esse problema, com conteúdos mais emocionais que exploram a vida e problemas pessoais dos artistas.

 

A maioria das faixas têm entre um e dois minutos. Chegam, fazem o seu papel e passamos para a próxima. Isto tanto é bom como mau. Por um lado, não temos “filler” dentro das faixas, não há tempo morto nem necessidade de alongar uma música desnecessariamente. Por outro, temos faixas que são em si “filler” ou, pelo menos, muito piores em termos de qualidade. Faixas como “Woah” e “Babywipes” não fazem falta. Os pontos mais altos são, sem dúvida, as bangers agressivas. “Neck Brace”, “Inferior” e “Dirt Nap” são dos exemplos mais marcantes. Fazem o papel delas lindamente da maneira mais nojenta possível.

O que é de notar é a instrumentalização de Thraxx e a produção de Mike Dean. É, nada mais nada menos, que fenomenal. Os tons baixos sentem-se a correr pela pele e os altos arrebentam os ouvidos (no bom sentido). 808’s que causam tremor no chão que pisamos, kicks distorcidos, guitarras e um habitual synth mais enterrado são as caraterísticas mais comuns entre todas as faixas. Se o álbum fosse só instrumental, seria um 8/9 a meu ver.

Posto de forma geral, as faixas de City Morgue trazem consigo um valor individual bastante poderoso. Mas muita coisa boa junta acaba por se tornar má. A estrutura recorrente dos temas e sonoridade acaba por causar aborrecimento com o tempo. É de notar que os momentos mais fortes de AS GOOD AS DEAD não são tão impactantes relativamente aos mesmos momentos no primeiro álbum. Se o Vol. 1 é uma cave infernal de faixas sem mercê, este projeto arrasta-te pelos vários níveis do inferno, dos mais calmos aos mais severos.