O Farol, de Robert Eggers, estreou a 25 de outubro de 2019. Com uma vertente surreal e, de certa forma, expressionista, o trabalho não ganha por muito mais do que pelos excelentes planos e cinematografia.

O filme-noir conta a história de um marinheiro que claramente queria ser pirata e do seu novo ajudante. Este último, Thomas Howard (Robert Pattinson), aparenta ser um funcionário empenhado e trabalhador, mesmo com todos os maus tratos recorrentes por parte do superior, Thomas Wake (Willem Dafoe). Apesar desta premissa, a pouco mais se resume a narrativa do que a devaneios sobre sereias e mar ou superstições sobre gaivotas.

O Farol

A longa-metragem faz lembrar, em alguns momentos, o intemporal Um Cão Andaluz, graças aos brilhantes planos aproximados e de pormenor. É nestes momentos que O Farol ganha intensidade e, também, maior interesse, graças ao elevado expressionismo que a câmara capta na perfeição. Porque a expressão é mesmo o mote de O Farol. Rostos que se manifestam cansados, bêbados, irritados ou loucos, mesmo que, na maioria das vezes, exagerados, preenchem o filme e conseguem levar também o espectador quase à loucura.

Para além de ruídos de gaivotas e de um suposto farol, que mais parece um telemóvel a vibrar, a produção não conta com grande montagem de som ou mesmo banda sonora. Para além disto, são mais e maiores os momentos silenciosos do que os que contêm diálogo.

É obrigatório destacar e aplaudir a performance fenomenal de Robert Pattinson como Thomas Howard. O ator consegue camuflar-se completamente, de modo que nem se parece consigo próprio, mas sim com um verdadeiro marinheiro do século XIX. Para além disto, consegue encarnar muito bem a loucura do seu personagem, com vários picos ao longo da história.

O Farol

Talvez o mais irónico de tudo seja o facto de, após 80 minutos de loucura para descobrir o que de tão importante escondia o farol, acabamos, de certa forma, por não o saber. A câmara foca, mais uma vez, no protagonista e, graças a ele e ao final explosivo, apenas imaginamos que, o que quer que fosse que ali estava, não era bom.

Quanto ao desfecho da história, nada se resolve. O espectador fica perdido e talvez chocado, devido à fraca ligação do plano final com o resto da narrativa. A única coisa que finalmente compreendemos é que, realmente, matar uma ave marinha traz grande azar.

O Farol é, portanto, um filme que não se destaca, a não ser pelo expressionismo, exagerado ou não, e pela cinematografia forte e brilhante, não fosse este um dos candidatos ao Oscar de Melhor Cinematografia. No entanto, não se pontua como uma produção fenomenal, muito menos realista. Realça sim o trabalho duro típico do século XIX, mas, posto isso de parte, é apenas um grande devaneio a preto e branco.