Entre o Verde e o Laranja, lançado a 8 de Novembro de 2019, é um EP curto, mas de grande qualidade, da banda de São João da Madeira- Prana. Miguel Lestre na voz e no baixo, João Ferreira na guitarra, teclado e back vocals e Diogo Leite na bateria, trazem-nos música para ser ouvida com calma.

De facto, esta última década pode ser definida por uma palavra: pressa. Prova disso é a emergência de práticas como o binge-watching (o assistir compulsivo de séries). Atire a primeira pedra quem nunca pôs música “para fazer companhia” e não efetivamente para a apreciar. A vida apressada a que os últimos anos nos têm habituado, leva a que comecemos a fazer as coisas mais mecanicamente e a perder o “quê” de humano e sentimental que antes nos diferenciava.

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Por todas as razões supracitadas, a banda que conta com mais de uma década de trabalho oferece-nos um EP com “apenas” três músicas: “Um dia de cada vez”, “Tempo nosso” e “Vou andar por aí”. Entre o verde e o laranja é um terço de um projeto composto por mais dois EPs – cada um terá, também, três músicas- ainda por lançar.

Mas por que não lançar um álbum com nove e lançar três EPs com três músicas cada? Talvez o sabermos que é pouco nos faça valorizar mais e nos faça guardar aproximadamente 10 minutos (a duração do EP) para ouvir e interiorizar e não nos leve ao “ouvir por ouvir”.

Após ouvir o álbum e pensando melhor no título, imediatamente remeto o verde para a permissão para ir, para o movimento. Em contrapartida, penso no laranja como algo que nem é dinâmico, nem está parado (porque não é vermelho). Portanto, a ideia de estar entre o verde e o laranja leva-me a pensar na apatia, na insatisfação, no fazer, mas não aproveitar. Podia ser só uma associação minha desprovida de qualquer sentido, mas, coerentemente, as letras levam-nos para a mesma linha de pensamento.

Um dia de cada vez” começa com uma anáfora que elenca algumas coisas que um individuo quer. Em contrapartida ao tom pessimista e insatisfeito da lírica, temos uma melodia, a meu ver, alegre. Não soa desconexo, porque faz pensar que se não estivéssemos tão atentos aos queixumes e ao que corre mal e ao que gostaríamos de ter e não temos, talvez ouvíssemos e víssemos tudo de forma mais alegre. Não consigo, contudo, enaltecer apenas um elemento da banda. Ao longo da música é conferida uma maior relevância à bateria, à voz e à guitarra (por esta ordem) sem parecerem peças soltas mas de modo a que conseguíssemos apreciá-las individualmente.

Por sua vez, “Tempo nosso” é um pouco mais melancólica na melodia e na voz, mas vai ganhando expressão ao longo do tempo. Nesta música onde sinto que a guitarra e a bateria estão de mãos dadas e onde os assobios funcionam incrivelmente em jeito de coro, aprendemos sobre o aproveitar os segundos que temos de algo em vez de os usarmos com queixas acerca do tempo que nos falta. Esta segunda música do EP é, sem dúvida, a que mais nos faz sentir numa montanha-russa.

Por último e acabando com a mais “laranja” das três músicas constituintes, “Vou andar por aí”. Com uma mensagem pertinente e impactante, a banda fala-nos de apatia, do quão desligados estamos de tudo e do outro e de como fazemos “o que tem que ser” e com uma atitude de “tanto faz”. Um trabalho de teclado calmante, mas desconcertante, um excelente uso dos back vocals e a bateria quase hipnotizantes acrescentados à voz que, apesar de ser a mesma ao longo do EP, é nesta música onde melhor se enquadra e encontra, levam a que esta seja, para mim, a melhor.

Aproveito para dizer que encontro neste EP uma qualidade que devia extrapolar o mundo da música: a adaptação aos estilos de vida. Talvez esta forma de apresentação no mínimo peculiar faça com que esta banda, que de forma poética passa mensagens pertinentes e intimistas (e em português!), consiga que a sua música notoriamente pensada faça, também, pensar.

Resta-me dizer: Prana, nunca cheguem ao vermelho!