Rosa Selvagem teve a sua estreia oficial a 12 de abril de 2019, no Reino Unido, mas só chega aos ecrãs portugueses a 20 de fevereiro. Com um total de 27 nomeações, a produção navega entre os mares dos sonhos, mas quase naufraga na tempestade da realidade.

O filme introduz a história de Rose-Lynn, uma jovem de Glasgow que persegue o sonho de se tornar uma cantora de Country, em Nashville. Contudo, a sua busca pelo “sonho americano” vê alguns obstáculos, impostos pela dura realidade da sua vida. Acabada de sair em liberdade após 12 meses na cadeia por posse de narcóticos, Rose agarra o seu objetivo e todos os mapas da cidade americana. Porém, esquece que o estado de mãe solteira e desempregada podem ser uma barreira entre Glasgow e Nashville.

Rosa Selvagem

É de destacar a atriz Jessie Buckley na interpretação deste papel. Ao assumir a vida de Rose, a sua entrega é notável. Consegue atrair o público para a confusão que é a protagonista. Por entre essa desorganização, vemos uma mãe solteira a tentar recomeçar uma relação com os seus dois filhos, Lyle (Adam Mitchell) e Wynonna (Daisy Littlefield). Claramente se denota distanciamento e uma ambiguidade nesta ligação, que foi adiada por um erro da própria.

Mas, no meio do caos, outra relação mãe-filha tenta também reflorescer. Marion (Julie Walters) recebe Rose após uma ausência de 12 meses num ambiente de tensão e alguma hesitação. É uma avó que também assumiu o papel de mãe. Talvez Rose-Lynn tenha escondido a sua gratidão na sombra da vergonha que sentia pela sua irresponsabilidade. Contudo, também se denota uma certa amargura implícita nesta relação, pela falta de apoio de Marian ao sonho da jovem. Não que Marion não desejasse sucesso à sua filha, simplesmente a clareza da realidade de Glasgow não lhe permitia alimentar esse objetivo quase inatingível.

Rosa Selvagem

Já todos ouvimos falar de uma utopia chamada “sonho americano”. Mas Rose-Lynn esqueceu de ler as entrelinhas. Em Rosa Selvagem assistimos a uma personagem que facilmente se deixa enganar pelo estrelato de outras figuras no meio musical.

O caminho faz-se caminhando, mas a protagonista queria saltar a parte da viagem. Não é somente encontrar um microfone e a banda perfeita para que o sonho se torne realidade. Tal como uma empregada de um bar de Country em Nashville lhe diz: “Eventualmente vais conhecer alguém que conhece alguém que trabalha algures que te vai ajudar”. Rose lentamente se apercebe de que não é só o talento que está em cima da mesa.

No que diz respeito à realização, Tom Harper faz um bom esforço em transportar para o ecrã as cores cinzentas do clima da Escócia. Da mesma forma, somos também elucidados pela realidade dos transportes públicos e da vida apressada de da personagem principal. Crescemos com ela. E esse crescimento é acompanhado por uma mudança de cores no cenário, que trespassam uma ideia de evolução, não só em Rose, como todas as outras personagens.

Rosa Selvagem

Não é de admirar que a banda sonora deste projeto seja música Country. Todos os momentos em que há interferência musical são dentro do género. E para aqueles que, como eu, julgavam que o Country é um som vulgar, talvez esta longa-metragem mude algumas ideias.

Rosa Selvagem é o tipo de filme que consegue juntar vários componentes no espaço de 101 minutos. Com Rose-Lynn, podemos aprender a viver um dia de cada vez e a amar o que a nós pertence. Por entre a turbulência que é o ser humano, esta personagem aprende e, logo de seguida, ensina-nos a acreditar nos nossos sonhos sem nunca nos desprendermos da realidade. É necessário apreciarmos aquilo que é nosso sem nunca o renegarmos em prol de algo que nos tentam convencer por meio da falácia da fama. Assim, como Rose aprende no final: “não há outro sítio como o lar”.