Diamante Bruto, escrito e dirigido pelos irmãos Josh e Benny Safdie, estreou em Portugal a 31 de janeiro. Durante 2 horas e 15 minutos, o filme consome quem o vê de tal forma que chega a ser cansativo. Ainda assim, é de admirar o arrojo do conceito e da performance de Adam Sandler, completamente reinventado nesta loucura de cinema.

Devo começar por dizer que este filme não é para todos, e não foi para mim. A cinematografia, o enredo e até o tipo de atuação são muito particulares e não deixam espaço para opiniões ambíguas.

Howard Ratner (Adam Sandler) é o centro da história. Com brincos de diamante e um par de óculos questionáveis, o dono da loja de jóias está não só repleto de dívidas, como também viciado no jogo das apostas. Uma pedra não lapidada vinda diretamente da Etiópia afigura-se a solução perfeita para os seus problemas financeiros: com as suas cores azuis e esverdeadas hipnotizantes, certamente iria valer uma quantia avultosa em leilão.

Diamante Bruto

Para complicar a vida do protagonista, o reconhecido jogador de basketball, Kevin Garnett, ganha apego, no limite da obsessão, pela pedra. A partir do momento em que Howard lhe empresta a preciosidade como um token de boa sorte para um dos jogos, uma série de peripécias rapidamente se desenvolvem.

O enredo apresenta uma premissa relativamente simples: um homem endividado e viciado em apostas recebe a oportunidade de enriquecer. No entanto, a determinada altura é difícil compreender o verdadeiro foco da história. Acontece tudo ao mesmo tempo: as consequências da compra da pedra preciosa, o vício de Howard e as dívidas que acumulou, que se manifestam em perseguições por parte daqueles a quem deve. Ainda assim, nenhum dos tópicos é aludido o tempo suficiente e a nossa atenção perde-se por completo.

Diamante Bruto é simplesmente sufocante. Raros são os momentos em que o ecrã não fica inundado por cores intensamente saturadas (uma clara referência às da pedra), ou por close-ups dos atores. No fim de algum tempo, fiquei com a sensação de que estava a ver algo por um tubo de caleidoscópio, com as imagens torcidas e refletidas em cores demasiado vivas, quase doentias, a misturar-se e envolver-se.

Diamante Bruto

Quando a cara desgrenhada de Adam Sandler não preenche por completo o ecrã com um certo intimismo forçado, somos bombardeados por cenários repletos de todo e qualquer tipo de objetos. Desde pilhas de roupa no chão aos manequins com colares debruados, a jóias e outras pedrarias, seguidos do vestuário das personagens, drapeadas de brilhos ou tecidos reluzentes, tudo se mistura numa tremenda confusão. Esta saturação de objetos, cores e reflexos não dá um momento de descanso aos olhos do espectador.

Mas a cinematografia estridente não é a única causa desta sensação de sufoco. Há constante diálogo, vozes a sobreporem-se umas às outras, cada uma mais alta do que a anterior, tropeços nas palavras, sem pudor de usar calão ou linguagem mais vulgar no meio da rua.

A música, composta por Daniel Lopatin, apenas contribui para o já desconcertante ambiente. Com os seus tons de eletrónica, deixa-nos também inquietos e com a sensação de que algo está realmente errado com aquele mundo e aquelas pessoas. Raramente há momentos de silêncio e, quando há, a sensação assemelha-se à de desligar um exaustor ou aquecedor barulhento após ouvir aquele mesmo som durante muito tempo.

Diamante Bruto

Adam Sandler revela-se por completo no protagonista. O sotaque carregado acompanha a atitude irremediavelmente alegre e quase infantil de Howard. Em poucos momentos o vemos ser levado pela corrente de tragédias que o segue. As instâncias de fúria são rapidamente substituídas pela sua compostura e atitude habitual. Desde a forma como se vangloriava com uma camisa de cetim rosa numa festa do TheWeeknd até a um ataque de choro com papel ensanguentado no nariz, não se abstem de ser simplesmente ingénuo, loquaz e viciado na adrenalina das apostas e negociações, ao ponto de se tornar quase insuportável.

Apesar de não ser, como disse inicialmente, um filme para todos, consigo apreciar o compromisso e empenho que os irmãos Safdie assumiram para com as personagens. Foram capazes de criar um mundo coeso, em que todos os detalhes contribuem para atingir um mesmo resultado: esta insanidade de cores e sons e vozes caleidoscópicas, sem meias medidas ou medo de se tornar cansativo – o que, no final, para mim, acabou por acontecer. Apesar da confusão, fiquei intrigada pelas personagens e pelo seu mundo alucinante, quase psicadélico.

Em suma, Diamante Bruto é um filme com características muito particulares e específicas do estilo dos irmãos Safdie, estranhas para alguns, uma lufada de ar fresco para outros. Apesar da complexidade de sons e imagens vibrantes, no limiar do exagero, as personagens criadas encaixam na perfeição no mundo em que se situam, cheias de caráter e insanidade, cada uma à sua forma.