Independentemente daquilo em que acreditamos, é essa crença, talvez, que nos move. Messiah, criada por Michael Petroni, estreou a 1 de janeiro e toca num assunto quase tabu: esculpe um cenário de resposta à pergunta: “e se o Salvador aparecesse nos dias de hoje?”.

Perceber o que nos faz acreditar em algo inexplicável é recorrer demasiado à fé e está no mais primitivo cúmulo do ser humano para justificar a realidade ou, simplesmente, para vivê-la. A humanidade não passa de um barco à deriva e o farol é muitas vezes a religião.

Messiah

Em Damasco, na Síria, no meio do mais puro desespero, surge um homem a recitar a palavra de Deus e a autoproclamar-se como seu filho. Esse discurso coincide com uma tempestade de areia que afasta o ISIS e o rapaz, de origem desconhecida, acaba por ficar com os louros da vitória. Al-Masih é o nome que lhe atribuem, que significa “O Messias Impostor”. Até meio da temporada o trajeto é similar: algo de terrível está prestes a acontecer e Al-Masih aparece e resolve a situação.

A invulgaridade das sucessivas situações toma proporções globais. Podia ser o maior golpe da História. Para investigar o caso, entram em cena a agente da CIA, Eva Geller, e o oficial de inteligência de Israel, Avrim. Com uma química aparente e em constante choque, ambos têm um passado que os persegue e uma vida pessoal arruinada.

De cabelo comprido, Al-Masih não aparenta estar ligado a nenhuma religião conhecida. Surge no Médio Oriente, onde predomina o islamismo, mas não reza ajoelhado para Meca. O pai era judeu e o cabelo comprido confere-lhe semelhanças a Jesus Cristo. Contudo, a sua palavra não passa de um mero clichê. Depois, a sua personagem é desconcertante e uma incógnita. No final de contas, ficamos sem saber se estamos perante um terrorista, um fanático religioso, um charlatão, um ativista ou um verdadeiro profeta.

Messiah

A ligação entre a Fé e os Média, os telemóveis ao alto a filmar tudo, em conjunto com as redes sociais, são recorrentes. O seu rosto está por todo o lado, a sua popularidade é abismal e o mediatismo só ajuda à festa quando já não há jornal sem o tópico Al-Masih. Este é, para mim, o retrato e a crítica mais poderosos ao longo da série: a salvação podia estar mesmo à nossa frente, mas o ecrã vem primeiro.

O primeiro episódio cativa-nos e prende-nos. Pelo meio, torna-se maçador e ficamos com a sensação que, em vez de dez episódios, Messiah ganhava mais como minissérie.

A produção peca quando passa o argumento para segundo plano. São levantadas questões sem qualquer relevância para o progresso da narrativa, nomeadamente a histórica inimizade dos EUA com a Rússia. Porém, apesar das inúmeras pontas soltas, o final, na minha opinião, está incrível.

Uma pedra no caminho para os crentes, uma chave na porta para os agnósticos e uma luz ao fundo do túnel para os ateus. Bastou mudar o contexto histórico e o resultado foi o caos. A culpa não é só das novas tecnologias, mas também nossa por sermos hipócritas o suficiente para não parar para pensar e querer tudo no imediato. Messiah perdeu o fio condutor, um fio condutor belo e intrigante, mas a essência está lá.