Mais de uma década após a identificação da SIDA como uma doença fatal, Filadélfia surge em 1993 como o primeiro grande filme de Hollywood que se arrisca a explorar o tema. Poderoso e emocional, foi uma aposta arriscada do diretor Jonathan Demme, ao abordar uma problemática tão controversa na época.

A longa-metragem conta a história do advogado Andrew Beckett (Tom Hanks), despedido da empresa de advocacia sob circunstâncias suspeitas. Por acreditar estar a ser vítima de discriminação, procura entre vários advogados algum que o aceite representar e acaba com um antigo rival, Joe Miller (Denzel Washington). Também ele terá que enfrentar os próprios preconceitos e reconhecer uma pitada de discriminação familiar na maneira como o cliente é tratado.

Filadélfia

Tom Hanks oferece uma das melhores performances da sua carreira, o que lhe garantiu o Óscar de Melhor Ator. Interpreta a personagem de forma humana, como alguém mais do que apenas uma vítima de uma doença terminal, alguém com sonhos, com uma carreira próspera e uma família amável. Não foi necessário adaptar e torcer o guião para sentirmos simpatia pelo protagonista. O ator torna-o genuíno e entrega cada uma das emoções necessárias para sentirmos compaixão.

Ainda que não seja tão óbvio, o trabalho de Denzel Washinghton é tão impressionante quanto o de Tom Hanks, apenas mais subtil. Miller representa a sociedade da época, aqueles com tendências homofóbicas que se deixam levar por estereótipos e caricaturas. É, talvez, a personagem com mais desenvolvimento e evolução durante o filme. Os seus olhares e expressões faciais ao longo da convivência com Andrew refletem a desconstrução dos preconceitos e a criação de empatia que progride para amizade.

Filadélfia

Quanto a personagens secundárias, destaca-se Antonio Banderas, num dos seus primeiros grandes papéis em Hollywood, ao interpretar o parceiro romântico do protagonista. Ainda que a química entre os dois não seja notável, o ator espanhol é essencial para percebermos a mágoa e angústia de ver quem mais se ama ser injustiçado enquanto a doença os vai tenuemente tirando de nós.

Filadélfia tem um estilo cinematográfico muito próprio dos anos 90. Grandes Planos, transições elaboradas e cortes não tão subtis são alguns dos elementos que se destacam. As cenas no tribunal distinguem-se por constantemente intercalarem entre grandes planos dos advogados e respetivos clientes, tanto da acusação como da defesa, planos aproximados dos júris e plateia e planos gerais da sala composta. Tudo isto acrescenta tensão e salienta os variados sentimentos de cada envolvido na narrativa.

Filadélfia

A banda sonora é fundamental para dar valor emotivo a cenas não verbais. Naquelas em que o diálogo toma protagonismo, a música eleva e esclarece o sentimento que está a ser transmitido. Numa cena em particular que assinala um espécie de reviravolta, a música é particularmente importante. Quando Andrew atua com uma tradução apaixonada da ária “La Momma Morta”, enquanto Miller olha em silêncio, atónito, compreendemos que fez a sua paz com a morte, ainda que ame viver.

Ainda que com as suas falhas, talvez por parecer cliché ou por manipular emocionalmente o espectador no final, Filadélfia continua a ser um trabalho relevante. É uma história sincera e autêntica que pretendia e pretende mudar crenças e desconstruir estereótipos. É intemporal e poderosa, pois ainda que a visão das sociedades ocidentais sobre a SIDA e homossexualidade tenham mudado, há ainda mensagens e valores a retirar desta obra. Numa época de individualismo e separação, a compaixão e empatia não devem nunca ser postas de lado, independentemente de quem é o próximo.

A produção de Jonathan Demme conta com dois Óscares: de Melhor Ator (Tom Hanks) e Melhor Canção Original, graças ao tema “Streets of Philadelphia”, de Bruce Springsteen. Foi ainda nomeado na categoria de Melhor Roteiro Original.