Uma típica comédia romântica que enfatiza uma moralidade tão nossa conhecida, que tenta ser passada há muitos e muitos anos e que, portanto, mais uma vez não cansa. Raja Gosnell, em 1999, apresenta-nos Nunca Fui Beijada, uma obra cinematográfica ténue e básica, centrada ainda num conceito moderno: ser alguém.

Joe Geller é uma editora no jornal Chicago Sun Times e sonha dedicar a sua carreira não à edição de artigos escritos por outros, mas à escrita em si. Com este objetivo a debater-se no seu peito, tem de aceitar o primeiro trabalho que lhe é proposto como redatora: infiltrar-se numa escola secundária e descobrir algo que se torne notícia. A tarefa seria aparentemente fácil, mais fácil ainda para aqueles que até tiveram uns anos de secundário favoráveis. No entanto, para Joe, confrontar-se com esta parte do seu passado aparenta-lhe ser uma missão quase impossível. Mas não desiste e vê nesta situação a oportunidade de ser o que não foi e de ter o que nunca teve: o seu principezinho encantado.

Nunca Fui Beijada

Nunca Fui Beijada é narrado aos olhos da protagonista e ampara-se numa rede talhada dos seus sentimentos e pensamentos. Porém, a envolvência e a partilha desta com o espectador é tão direta que até nos sentimentos constrangidos em algumas situações. A aura da obra envolve-se muito com a da protagonista e a “pinginha” de mistério que poderíamos exigir acaba por ser derramada, tornando os consecutivos desfechos um pouco previsíveis.

A longa-metragem ronda um senso de humor pouco apurado e assenta num comum romance adolescente, com um pouco mais de maturidade, visto que Joe “já passou essa fase”. O elenco revela-se, por sua vez, acessível e superficial. David Arquette (Rob Geller), Molly Shannon (Anita) e John Reilly (Gus Strauss) desempenham os papéis que conferem ao filme um cómico mais realista, o que o torna a mais apelativo, mas mesmo assim, comum.

Nunca Fui Beijada

Drew Barrymore consegue desenvolver o ar de menininha da personagem principal e destaca-lhe as marcas que seriam de esperar na sua performance: a timidez, aflição, medos e insatisfações de Joe perante a sua tarefa e, por outro lado, a sua determinação. Contudo, a representação, em partes, aparenta um esforço muito acentuado em revelar as características que definem a personagem, o que se torna incomodativo. Em contraste com a atriz, temos a representação de Michael Vartan: mais madura, completa e delicada.

Nunca Fui Beijada mostra-nos e faz-nos repensar no tempo em que passamos a tentar ser o que não somos para agradar a quem não devíamos. Leva-nos a perceber que às vezes deixámos de lado a nossa verdadeira essência e que com isso, esquecemo-nos de nós e dos nossos propósitos. Assim, mesmo que apresente aqueles traços frequentes que sabemos que vamos encontrar numa obra deste tipo e mesmo que não nos revele mais do que aquilo que imaginámos, realça um tema bem habitual, mas que ainda não está batido.