Brent Faiyaz volta, em 2020, com mais um álbum após três anos. Fuck The World é um projeto que abre portas a um artista que, ao longo dos anos, tem vindo a afirmar o seu lugar no meio do R&B.

Dois meses em 2020 e Brent Faiyaz lança Fuck The World. A última vez que tivemos um cheirinho de um álbum sólido e completo seu foi em 2017, com “Sonder Son”, e um EP em 2018, “Lost”. Um artista que sempre se resumiu a lançar singles soltos e projetos relativamente mais encurtados, Brent Faiyaz vai progressivamente alastrando.

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Apesar de ter menos duas músicas que Sonder Son, Fuck The World não deixa de poder ser considerado um álbum. Sejam apenas músicas lançadas aleatoriamente ou sejam projetos mais elaborados, Brent Faiyaz nunca deixa a desejar na entrega ao som do R&B. E por muito que se possa desenhar uma linha ténue entre o R&B atual e o passado, a verdade é que Faiyaz não falha no registo mais atual do estilo.

“Skyline” é a linha de partida deste álbum. Com melodias e o que parece ser a voz de Brent Faiyaz distorcidas nos segundos iniciais, o instrumental assume um registo calmo. Algo que caracteriza este artista é o facto de navegar o instrumental com melodias vocais na perfeição. A acompanhar a tranquilidade do som surge uma letra onde ele nos questiona se sabemos o que faz mover o mundo. Com isto, o artista enfatiza a importância de nos consciencializarmos de que as nossas ações não só nos afetam a nós como também todos aqueles que nos rodeiam.

Na segunda faixa emerge “Clouded”. Tal como o próprio título da música diz, Faiyaz tem a sua cabeça clouded, ou seja, ocupada por um nevoeiro de pensamentos. Num tom mais baixo e também com uma produção distorcida de instrumentos, esta música segue a linha de tranquilidade de “Skyline”. Numa tentativa de associar o título ao conteúdo, o artista denuncia o desassossego. A obsessão com o seu impacto no mundo e a sua incompatibilidade com os valores que a sociedade lhe impõe condenam-no a estar preso num ciclo.

“Been Away” é a terceira música de Fuck The World. Num registo mais mexido, o instrumental continua mergulhado na distorção a computador. Para esta faixa, o artista decide virar o seu foco para o campo amoroso. Admite que não tem estado muito presente na relação porque “I’m just tryna get my paper straight”. É clara a mensagem de Faiyaz, mas também um pouco controversa. Ele deseja ganhar dinheiro e prosperar na carreira enquanto pede à sua metade para esperar e não canalizar o amor para uma outra relação. Um pedido algo egoísta que o próprio parece reconhecer.

“Fuck The World (Summer in London)” ocupa o quarto lugar na lista das faixas. Talvez por ter parte do título igual à do álbum Faiyaz queira provar algo. Com uma produção que se aproxima da excelência, esta faixa é das melhores (se não a melhor) deste projeto.

Remete-nos para uma paz de espírito que o artista parece igualmente sentir. O conteúdo lírico demonstra a insignificância que Brent Faiyaz parece atribuir ao que o mundo possa pensar dele. Nos segundos finais, o instrumental desvanece lentamente para um testemunho do artista. Admite que o que o relaciona aos que se revêm na sua música é uma capacidade de estar atento ao detalhe. E tal como admite nos versos, “I’d prolly be dead if I was basic”.

Seguimos caminho para “Let Me Know”. É possível identificar o som do piano no meio de uma produção com uma batida bem conseguida. E neste ambiente algo mais animado surge uma letra de introspeção.

Faiyaz cai na realidade da impossibilidade de amar outro sem primeiro se amar a ele próprio. E talvez este pensamento já tenha percorrido todos nós. O facto de procurarmos felicidade e preenchimento numa outra pessoa sem tentarmos primeiro encontrar em nós é algo que nos caracteriza enquanto seres humanos. E como resultado dessa nossa ânsia por encontrar alguém que nos complete, qualquer um entra. Tudo isto leva Faiyaz a questionar “why do we act this way?”.

“Soon Az I Get Home” é a sexta faixa do projeto e inicia logo com a voz de Brent Faiyaz em diferentes tons. Em termos de duração, esta música é mais uma das curtas que compõem Fuck The World. Os curtos segundos denunciam o caráter de interlúdio. Assim, o artista não explora muito o instrumental, baseando-o numa simples batida. A letra também acompanha essa simplicidade. A vida na constante azáfama não o impede de, quando finalmente chega a casa, viajar para o infinito sem preocupações.

“Rehab (Winter in Paris)” inicia com os acordes suaves de uma guitarra que rapidamente são guiados para o som de um baixo quase sombrio. A voz de Faiyaz segue esse registo mais baixo, mas por vezes eleva a voz, demonstrando a capacidade de adaptação ao tom.

A letra também consegue andar de mão dada com a escuridão que, de certa forma, a música transmite. Sendo parte do título “reabilitação”, o artista assume o seu amor por uma mulher que se encontra no ciclo vicioso das drogas. Único conhecedor desse lado, a sua segunda metade passa a ser, consequente e metaforicamente, a sua droga.

A oitava música é intitulada “Bluffin”. A acompanhar a onda algo sombria da última faixa, Faiyaz expressa incertezas. É apanhado numa teia por uma mulher que o induz no erro. Não sabe se são sentimentos verdadeiros ou um simples bluff. A produção volta a ser resumida à manipulação de um computador, mas não conquista como todas as que a antecedem.

Aproximamo-nos do fim com “Lost Kids Get Money”. A nona faixa deste álbum tem um ritmo mais alegre do que “Bluffin”. Claramente, Faiyaz encontra-se numa mentalidade mais positiva. Avalia a big picture da sua vida e conforma-se com o sucesso que, em parte, pode ser quantificado pelo dinheiro que recebeu. A  voz procura acompanhar o ritmo. Igualmente, expressa algum orgulho por um miúdo perdido ter subido na vida, mesmo que isso signifique algum materialismo.

“Make It Out”, que assume a forma de outro, finaliza este projeto. Com apenas trinta e um segundos, Brent Faiyaz espera sair desse círculo de pensamentos que o encarceram. Porém, os curtos segundos não retiram a qualidade da melodia de vozes. “I’ve been down but I hope I make it out”  são os versos que libertam Faiyaz e que encerram o álbum.

E foi esse desassossego interminável que o artista de R&B canalizou para criar Fuck The World. Brent Faiyaz não é um nome que muitos conheçam. Contudo, o  artista está interditado de entrar numa indústria que somente premeia o básico e o que mais vendas obtém.

Faiyaz ainda tem um longo caminho a percorrer para obter a credibilização (ainda que desnecessária) do seu meio artístico. Descobri Brent Faiyaz despropositadamente quando o Spotify me lançou em playlists desconhecidas. Mas talvez seja essa a ironia por trás dos bons artistas: encontramo-los quando menos esperamos.