Um livro de Olga Tokarczuk que nos aproxima da nossa essência enquanto humanos e que nos obriga a repensar as nossas ações. Uma narrativa criada para vermos o que acontece quando os gritos não são ouvidos e quando as palavras passam a ser ações. Uma obra no qual a história não fez a personagem, mas a personagem a história.

Janina Duszejko, é a protagonista e narradora da obra. A responsável por desnortear e encaminhar o leitor ao longo desta fantástica aventura. É-nos apresentada como uma mulher polaca, idosa, ágil, refém das “maleitas”, defensora dos animais e pessoa de poucas pessoas.À primeira vista, nada que o leitor não possa suportar. Mas deixa-nos inquietos, na corda bamba, porque ao contrário de muitos outros livros, não nos conseguimos pôr na sua pele nem ousamos estabelecer comparações. É única e é raro, após tantos anos de literatura conseguir criar uma personagem que foge às muitas outras.

Não conseguimos vê-la na nossa mãe, na nossa avó, na nossa pacata rotina, mas afeiçoamo-nos à sua personalidade bem edificada. Aclamamos o seu amor pelos animais, pela natureza e não pomos de lado a sua ideia de que as estrelas controlam as vidas. É inatingível, irreal, cativante, misteriosa, loucamente racional e, por isso, tão apelativa. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos gira à volta da mentalidade construtiva da protagonista, da sua revolta e ira, da sua voz mal ouvida, dos seus conhecimentos e princípios benévolos.

Olga Tokarczuk, Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos

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No início da narrativa, o leitor é presenteado com a morte de Pé Grande, vizinho de Janina e caçador. Como tal, começa logo a imaginar que a obra será um policial linear associado à perspetiva da personagem principal. Porém, à medida que vai aprofundando a leitura, perde-se em moralismos, juízos de valor, teorias mundanas que dão que pensar, conceitos impensáveis, astrologias e filosofias consistentes.

O policial previsto rompe-se num diário mental intercalado com ideologias sensatas de Janina. E, quando o leitor se encontra mais uma vez afogado em palestras sobre mapas astrais, religião, traduções de poesia e em descrições de caminhadas pouco articuladas e de pessoas massudas, surge um pequeno raio de sol: a morte de mais um caçador para criar um bom fio condutor na narrativa.

Para estas mortes, a protagonista apresenta-nos uma peculiar teoria que é desenvolvida e exposta até ao desfecho do livro. Defensora dos oprimidos, vê nestes crimes forma dos animais se vingarem do Homem. Vê nestes assassínios a mão da natureza fazê-lo pagar por todas as vidas inocentes que tirou para seu contento.

Durante os momentos em que a leitura se baseia em conhecer profundamente Janina, o leitor pode aproveitar e pegar num lápis para sublinhar todas as verdades que são ditas e que não ousamos proferir. No entanto, é ainda vital um mapa para não nos perdermos no labirinto da narrativa. São tantas as partes em que se absorve na transmissão de ideias e pensamentos, que tendemos a perder o interesse e a atenção, se não lermos com cuidado.

Nas partes mais “teóricas” a escrita, sempre delicada, firma-se e é percetível a profundeza da personagem principal e os seus sentimentos. A forma como a natureza é soletrada aconchega os cenários e o modo como são reivindicados direitos e espelhada a sociedade, faz-nos ter vergonha. Poderoso.

Papão, Dyzio e Boa Nova são personagens que nos ajudam a compilar uma perceção mais afincada da protagonista e a dar sentido, não só aos eventos da obra, mas à narradora. Janine é a voz que gostaríamos de ter e é por isso que Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos se torna tão próximo ao leitor e nos toca enquanto Homens.