A música anda de mão dada com a sanidade mental de todos. Não que tenha pesquisado artigos científicos para suportar a minha afirmação, mas afirmo-o com base naquilo que tenho observado ao longo dos tempos, em especial com a atual situação de confinamento devido à Covid-19.

A música sempre foi importante, é uma forma de comunicação na sua essência e, numa altura em que vivemos socialmente confinados (ou deveríamos), a música surge como uma forma de escape e de aproximação. Pensando bem, o que despoletou esta ideia foi ver os cidadãos italianos a cantar nas suas varandas – algo que em Portugal foi adotado (ou melhor dizendo, copiado) poucos dias depois quando, no nosso país, ainda a procissão ia no adro.

Somamos, atualmente, uma já significativa quantidade de iniciativas artísticas. O “One World: Together at Home”, por exemplo, é o mais recente exemplo das práticas cujo objetivo é, acima de tudo, a solidariedade para com quem se fecha em casa e se adapta a uma nova realidade.

Por cá, entre a organização de festivais online e sugestões de práticas vindas do Ministério da Cultura (que geraram, e bem, alguma polémica), vemos o “Música da Casa” como uma resposta dos que gostam e querem apoiar a música portuguesa. Para além disso, também testemunhamos os músicos portugueses a ser solidários e a utilizar as ferramentas de diretos das redes sociais para dar concertos em casa – de forma completamente gratuita. Por isso, merecem aplausos.

Entretanto, os mais céticos argumentam que se trata também de um aproveitamento de quem já é conhecido para se auto promover. A esses digo: se não acreditamos, neste momento, no lado humano das pessoas, vamos acreditar quando? A meu ver, estas são atividades conscientes de que os músicos têm o poder de apoiar, inspirar ou de apenas querer fazer companhia às pessoas em tempos difíceis.

Porém, algumas destas atividades estão também conscientes de que muitos artistas não têm forma de ganhar dinheiro se não poderem exercer a sua atividade. A cultura, e o setor da música em específico, não consegue sobreviver de solidariedade. Quem diria? Certo que as plataformas de streaming têm tido muito mais procura, mas existem de forma quase proporcional muitas pessoas que dependem da música para ter pão nas suas mesas.

Os concertos online são uma boa adaptação, contudo não são sustentáveis. Relembre-se que nem só os músicos vivem da música e nem todos os músicos ganham fortunas. Existem milhares de pessoas – os chamados “invisíveis” da música – que dependem de concertos, festivais e, enfim, da música ao vivo para sobreviverem.

Na revista Blitz lemos, e bem, que em 2020 não vai existir música ao vivo. Um pouco por toda a parte, e aos bocados, os festivais estão a ser cancelados – do Rodellus em Ruílhe ao Coachella nos Estados Unidos.

Matemática não é o meu forte mas isto significa e traduz-se em milhares de pessoas por todo o mundo que deixam de trabalhar. Não há teletrabalho que salve quem acompanha bandas em digressões. Para além dos artistas, são imensas as pessoas – chamados de “invisíveis” da música – que trabalham para nos oferecer cultura e que vão deixar de poder fazê-lo. Vão desde técnicos de som a responsáveis pela montagem dos palcos, passando pelos promotores e sem esquecer os próprios agentes.

Concertos não são só concertos, são, acima de tudo, experiências culturais. Saibamos que, quando isto passar, é necessário valorizar ainda mais do que nunca a cultura e quem a faz. É preciso sermos solidários para com quem nos deu música quando o silêncio parecia poder apoderar-se tão facilmente das nossas mentes.