A 23 de junho de 2003, Beyoncé Giselle Knowles lançava o primeiro álbum a solo intitulado Dangerously In Love. O projeto que estreou em 1º lugar no US Billboard 200 conta com alguns dos maiores hits da cantora estadunidense e arrecadou cinco prémios na 46ª cerimónia dos Grammy Awards, em 2004.

Beyoncé estreou-se na indústria musical em 1997, enquanto vocalista principal do grupo Destiny’s Child. Em 2002, após o sucesso estrondoso de temas como “Say My Name”, “Bills, Bills, Bills” e “Independent Women”, o grupo – então formado por Beyoncé, Michelle Williams e Kelly Rowland – decidiu embarcar num hiato. Foi durante esse período que surgiu Dangerously In Love, numa tentativa de se tentar perceber como Beyoncé seria recebida a solo. O sucesso dos quatro singles e as mais de 11 milhões de cópias vendidas mostram que o público estava mais que preparado para a cantora norte-americana.

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O álbum abre com “Crazy In Love”, uma colaboração com o rapper Jay-Z com quem Beyoncé se viria a casar cinco anos mais tarde. Na produção foram usadas amostras musicais da canção “Are You My Woman (Tell Me So)” dos The Chi-Lites. Apesar de ser um tema R&B, o primeiro single do álbum incorpora elementos de Hip Hop, Soul e música Funk, bem ao estilo dos anos 1970.

Ao nível instrumental, destaco a forte presença da linha de trompas e o famoso hookuh-oh, uh-oh, uh-oh, oh, no, no” que parecem ser a imagem de marca deste tema. Liricamente, Beyoncé canta sobre estar loucamente apaixonada e ser capaz de fazer coisas para lá do espectável por amor. O icónico verso “Got me looking so crazy right now” – que acabou por servir de inspiração para o título da faixa -, surgiu a partir de algo que a cantora disse enquanto se olhava ao espelho. Dada a aparente longevidade deste tema que ainda hoje é dos mais ouvidos nas plataformas de streamimg, “Crazy In Love” foi considerada pela Rolling Stones a melhor música do século, em 2018.

O 2º single, “Baby Boy”, conta com a participação de Sean Paul. Às claras influências Dancehall do cantor jamaicano juntam-se ritmos árabes e asiáticos que conferem um carácter único à canção. Como também acontece em “Naughty Girl,” o 4º single de Dangerously In Love, a cantora canta de forma sensual sobre as suas fantasias sexuais e o desejo de amar profundamente, sempre com um tom algo provocador.

Apesar de ser uma evidente ode ao amor, nem todas as canções falam de relações interpessoais e é neste sentido que Beyoncé inclui “Me, Myself and I” entre os singles do álbum. O tema está entre os mais pessoais e foca-se no amor próprio e na autossuficiência após um traumático término de um relacionamento. Em relação ao arranjo musical, realço a presença do baixo e de riffs de guitarra elétrica. Além disso, Beyoncé usa este tema para explorar várias harmonias naquilo que parece ser um dos vestígios da participação no grupo Destiny’s Child.

Mas não é o único: a 12ª faixa, que dá nome ao álbum, foi-nos apresentada pela primeira vez em Survivor, lançado em 2001. Trata-se de uma balada elegante que permite à cantora norte-americana mostrar toda a sua extensão vocal que, aliada ao sofisticado arranjo, lhe mereceu um Grammy para Melhor Performance Feminina de R&B.

Speechless” é a segunda balada de Dangerously In Love e conta com uma produção musical lenta e atraente mergulhada numa performance vocal extraordinariamente sedutora. Destaca-se como um tributo poderoso e sensual à intimidade partilhada entre duas pessoas loucamente apaixonadas. Explora ainda a vulnerabilidade que o sexo exige e o êxtase que pode proporcionar. Apesar de não ter sido tão aclamado pelos críticos, considero que o tema acabou por influenciar canções que viriam a surgir mais tarde na carreira de Beyoncé, como “Rocket” do álbum autointitulado que lançou em 2013.

Beyoncé sempre mostrou interesse pela astrologia, principalmente no início da carreira. Apesar disso, a inclusão de duas canções relacionados com esta temática no álbum de estreia acabaram por não ter o resultado esperado. “Signs” e “Gift from Virgo” estão igualmente bem produzidas e, melodicamente, condizem com as restantes faixas. No entanto, no que toca à continuidade da narrativa, acabam por ser algo dissonantes.

Dangerously In Love fecha com aquele que considero o mais biográfico de todos os temas. “Daddy” surge como uma homenagem e agradecimento ao pai por tê-la encaminhado para a indústria musical. Mathew Knowles desempenhou um papel importante na carreira da filha, tendo sido seu manager até ao ano de 2011. Na canção, Beyoncé realça também a lealdade e devoção de Mathew para com a família e chega inclusive a cantar “I want my unborn son to be like my daddy”. Também esta canção acabou por inspirar outras dedicadas ao pai, como é o caso de “Daddy Lessons” do Lemonade (2016).

Não restam dúvidas que Dangeroulsy In Love marcou a indústria musical do início do século XXI contribuindo para uma maior valorização do R&B. Revelou-se também como a rampa de lançamento para Beyoncé, primeira de seu nome, que viria a tornar-se a melhor performer da sua geração.