Guns Akimbo, escrito e dirigido por Jason Lei Howden, estreou em Portugal a 5 de março. A obra cinematográfica assemelha-se a uma grande tempestade feita num copo de água, mas com um propósito bem justificável.

Miles Harris é um rapaz normal, com uma vida banal, sem um grande desígnio aparente e com um emprego infeliz. Por diversão espalha cometários maldosos pelas redes sociais. Com um destes comentários menos respeitosos torna-se no maior êxito da internet. Visto desta perspetiva simplista, o filme requintava-se de tudo aquilo que não é: em primeiro lugar, simples e, em segundo, frouxo. O rapaz é, na verdade, feito refém de um jogo, de um bem real.

Guns Akimbo

“Skizm” é um grupo que escolhe pessoas, de forma aleatória, para combaterem uns contra os outros até à morte. Enquanto os concorrentes bailam num “matar para não morrer”, tudo o que fazem é transmitido ao vivo pela internet. Para sorte dos deuses, Miles critica-os. E por mais sorte ainda, acaba com duas armas a fazer de mãos e com 24 horas para matar Nix, a sua adversária.

Ao que tudo indica, aqui temos um inteligível filme de ação. Mas não nos vamos deixar de iludir. À frente da poderosíssima ação, vem a comédia e com esta os rumos da história já se alteram e surge um enredo apresentável.

Daniel Radcliffe abraça Miles da melhor forma, tornando-o o mais vívido e credível possível. A ingenuidade, a aflição e a desgraça da personagem é incrivelmente bem posicionada pelo ator. Tão bem posicionada que até o próprio Harry Potter louvaria este ato. Deste modo, o espectador não pode reter-se a envolver-se com o protagonista. Por outro lado, Nix é representada por Samara Weaving. Conta com características que a tornam o oposto de Miles: desafiadora, impulsiva e confiante, com umas pitadas de loucura. A performance da atriz não fica muito atrás da de Daniel Radcliffe, mas este rouba-lhe o protagonismo.

Guns Akimbo

Ao longo de Guns Akimbo, desespero de Miles é tanto que se torna cómico. Juntando a isto a sua inocência, o espectador não tem como não se rir com a desgraça dos outros. Para não falar do dó que começa a nutrir pelo rapaz, a partir do momento em que este passa a ter no lugar das mãos duas armas. A sua incapacidade de vestir umas simples calças, de abrir uma mera porta ou de ir à casa de banho é de tal forma bem retratada que não sabemos se nos voluntariamos para o ajudar ou se o idolatramos por fim.

O cómico é ainda suportado com a violência. Porém, quando esta passa a ser “extrema”, amparam-na com êxitos musicais que distraem o espectador de cenas mais tensas. Para além disso, a banda sonora corre a um ritmo arrojado, sobretudo graças a Enis Rotthoff, para realçar o clima de jogo e de ação. Este compasso é interrompido, de vez a vez, com faixas mais calmas para dar lugar a sentimentalismos.

Os pormenores dos cenários, como as cores, interpelam o espectador como se este estivesse, de facto, dentro de um jogo. Contudo, os efeitos especiais que podiam assentar como uma luva, não assentam, mas também não se esborracham. Assim, o clima perfeito torna-se ligeiramente inexato, ainda mais com as aproximações e os afastamentos envolvidos com o slow motion que sufocam um pouco a narrativa.

Guns Akimbo confronta o nosso senso de realidade e atira-nos para uma encruzilhada icónica. É um filme de entendimentos e, se formos a ver, de muita sorte.