O Amigo do Deserto, de Pablo d’Ors, foi publicado em 2014. No entanto, apenas em outubro de 2019 chegou traduzido a Portugal. Esta obra pequena, mas bem escrita reflete sobre o deserto, o silêncio e viagens, sempre com um misto de suspense e introspeção. Não desinquieta, mas às vezes também é preciso.

O autor nasceu em Madrid em 1963 e é um escritor e sacerdote católico. Estudou Filosofia e Teologia em Nova Iorque, Praga, Viena e Roma. Posto isto, a viagem física não é propriamente um choque em O Amigo do Deserto. Sublinho a harmonia da espacialização na obra, creio que nunca nos sentimos fora de onde é suposto estarmos. Em 2014, após a publicação deste livro, fundou os Amigos do Deserto. Esta associação visa o aprofundamento e a difusão da atividade de contemplar, simplificando, a meditação, tema este que também é crucial na obra.

Pablo D'ors, O Amigo do Deserto

Fotografia: Pedro Fazeres/Público

A contemplação, a importância do silêncio, a viagem física e espiritual, a introspeção e, claro, o deserto. Tudo isto aglomerado num pequeno livro com menos de 200 páginas e de fácil leitura. As frases são curtas, o vocabulário é simples e, em suma, é leitura para três ou quatro horas “de rajada”. O estilo de escrita acaba então por influenciar positivamente a obra.

Contudo, as personagens pecam um pouco mais. Acredito que nem o protagonista tem traços relacionáveis e chega, por vezes, a ter alguns que não nos fazem morrer de amores. Não é possível criar grande ligação com nenhum personagem. No entanto isso também poderá ser devido ao tamanho da narrativa e não propriamente à qualidade da escrita.

No geral, considero que O Amigo do Deserto é uma obra difícil de descrever. A experiência de leitura é rápida, mas isso não quer dizer que não exija reflexão. A temática e algumas frases desencadeiam introspeção. Damos por nós, por vezes, também a viajar na nossa cabeça. Contudo, não espanta. É bom para passar uma tarde agradável, relaxada e de alguma interioridade, mas não acredito que seja um daqueles livros dos quais nos lembramos anos depois.