Heather Morris apresenta-nos, depois de O Tatuador de Auschwitz, mais uma história implacável e inclemente sobre as sequelas do Holocausto. A autora baseou-se em factos reais para nos narrar A Coragem de Cilka. Porém, estes estabelecem uma dança com a ficção e o romance, oferecendo-nos um livro imenso.

A Coragem de Cilka não é uma história barata de como uma rapariga sobreviveu aos nazis. É a história do depois, aquela que nunca nos é dada. O depois dos campos de concentração e o depois das vidas humanas que foram manchadas para todo o sempre. Mas o leitor que não se engane: o depois de Cilka foi quase tão desumano como o seu antes.

A protagonista, uma jovem mulher, resistiu à vida do campo de concentração de Auschwitz- Birkenau. Para tal, fez todos os possíveis para ver o amanhã, até mesmo atos incomensuráveis e que, mais tarde, ditaram o seu futuro. Depois de os russos libertarem o campo de concentração, Cilka foi interrogada e acusaram-na de colaborar com os nazis. Assim, foi condenada a quinze anos de trabalho forçado na Prisão de Montelupich, em Cracóvia. Passou de um Bloco para um outro e foi-lhe conferido um outro número e um outro homem. Uma outra vida de sobrevivência e, talvez, mais um ato de sorte.

Heather Morris, A Coragem de Cilka

Heather Morris

A rapariga não nos deixa cair a seus pés em suplicas e em banhos de pena colossais. Acompanhamos a sua história como ela a acompanhou: firmemente, com uma postura rija, sem rédeas para esperanças e numa angústia silenciosa. A cada capítulo pesa-nos na consciência mais um pouco e a comida dá cada vez mais sinais de querer saltar cá para fora.

Ao contrário de O Tatuador de Auschwitz, este livro é mais pacífico e menos agitado. No primeiro livro de Heather Morris, o leitor inquietava-se, mas havia sempre uma expectativa palpável de um bom futuro. A repugnância e a tirania surgiam muito pontualmente e de forma brusca. Mas, a par disto, vinham lufadas de ar fresco que acalmavam a humanidade dos leitores.

Contudo, em A Coragem de Cilka os acontecimentos não são tão assim: a agonia não é tanta, mas também não há espaços onde podemos respirar de alívio. É um sufoco até às últimas páginas. O leitor prende o ar, durante todo o livro, de tanta aflição e nem se apercebe. A aflição não nos surge em atos demasiado desumanos ou em ações repugnantes e depois vai embora. É calma, contínua e acompanha-nos ao longo de todos os capítulos. Emerge desde as primeiras palavras e só termina horas depois de a história acabar.

Isto não quer dizer que não haja atos revoltantes ou ações bárbaras que nos faz querer gritar e insultar a humanidade, porque há. Só não há tantos momentos de paz e de esperança como o leitor gostaria. E este facto é o que o torna tão forte.

A escrita não nos dá o relato dos acontecimentos com falas mansas: é direta e no ponto. Obriga-nos a confrontar a realidade e, mais do que tudo, a senti-la. Podíamos até mesmo dizer que é uma escrita cruel de tão transparente.

Na verdade, não há muitas palavras para descrever esta leitura. É um dos livros que afeta cada um muito individualmente. Não é daqueles que apresenta significados universais. Afeta-nos na nossa essência de cidadãos, de pessoas, e afeta o nosso lado animal. Assim, cabe a cada um ter coragem para navegar nesta leitura, sentir o livro, ver-se nas palavras e aperceber-se, por sua vez, da coragem de Cilka.