Delírio em Las Vegas estreou no ano de 1998. O filme de Terry Gilliam, bem como a grande maioria da obra de Hunter S. Thompson, baseia-se na questão de o “sonho americano” poder não passar de uma simples psicose.

Protagonizado por Johnny Depp, enquanto Thompson, e Benicio del Toro, enquanto Dr. Gonzo, a longa-metragem retrata várias das peripécias alucinantes do que foi para muitos o maior iconoclasta do jornalismo do século passado. Imbuído numa intrepidez psicadélica (e não só), que redefine e supera largamente o conceito de overdose, o auto-proclamado doutor de jornalismo leva-nos na alucinante viagem pelo que Hunter chama de “Condado dos Morcegos”, um estado não-geográfico acessível através duma mescla de cocaína, mescalina, vários ácidos, éter e todas as outras substâncias a que consiga, junto do seu mais-ou-menos-fiel companheiro, deitar mãos.

Delírio em Las Vegas

Delírio em Las Vegas não só um bom filme como, acima de tudo, um excelente aperitivo para o banquete que é a antologia escrita de Thompson. O surrealismo fluorescente serve de pilar para o aspeto perversamente cómico da trama, claramente influenciada pelo trabalho do realizador enquanto membro integrante dos Monty Python. Vê-lo é comprar o bilhete para uma viagem turbulenta numa montanha russa de drogas, loucura e paranóia assustadoramente íngreme, que atinge altitudes que estão para a sobriedade como o pico do Monte Evereste está para o fundo do oceano.

É precisamente do contraste evidente entre o fogo de artifício típico da atmosfera cultural de Las Vegas e a natureza profundamente tenebrosa desse mesmo universo que nasce a principal qualidade do filme. Trata-se de um retrato profundamente fiel do olhar do pai do jornalismo gonzo na decadência pós-hippie dos anos 70. E, tal como no livro, um relato visceral na primeira pessoa dos altos e baixos da montanha russa sensacionalista que era Las Vegas nessa época.

O clássico de Hollywood recorre talvez mais vezes que o necessário a um humor excessivamente pateta e inebriado, tornando-o quase banal. Contudo, é a forma como a essência do personagem principal se reflete na sua maneira única de olhar e narrar o mundo que o rodeia que mais se destaca no filme.

Delírio em Las Vegas

Esta peculiaridade não se reflete só no muito completo trabalho de reprodução dos maneirismos e do pensar de Thompson feito por Johnny Depp. Está igualmente sempre presente na forma como todos os elementos interagem entre eles e com o protagonista, acabando eventualmente por se dissolverem numa atmosfera de nevoeiro ácido e árido, repleta de risadas histéricas que abafam um desespero existencialista omnipresente. Como nas suas reportagens, Thompson corre atrás do epicentro da história, não só relatando, como participando, embora nem sempre ativamente, em atividades que cruzam a bestialidade desumana com o que de mais perverso existe no cerne da humanidade altamente distorcida de várias das personagens e, em particular, do seu advogado e parceiro de crime, Dr. Gonzo.

Em Delírio em Las Vegas, contamos ainda com o uso estranhamente eficaz do voice-over para narrar, em citação direta do livro do autor, este estranho percurso. É um zig zag embriagado pelo túnel sem fim de um pesadelo americano, onde a única luz é uma tocha incendiária de cores do arco-íris, que queima em acessos caóticos tudo o que ilumina. Esta sinuosidade vem desconstruir, como escreve Thompson, a “velha e mística falácia da cultura dos ácidos: o pressuposto desesperado de que alguém – ou pelo menos alguma força ou entidade – está a cuidar da luz ao fundo do túnel”.