O quinto álbum de Fiona Apple, Fetch The Bolt Cutters, dá-nos a solução da persistência saudável dos seres humanos no planeta terra – a necessidade de perceção de que a vida não é unilateral. As coisas mudam e o melhor a fazer é afastarmo-nos de quem e do que nos quer enjaular.

“I Want You To Love Me”, a primeira música do álbum, subentende essa aceitação da mutabilidade da vida (“I’ve waited many years / Every print I left upon the track / Has led me here”). De acordo com a artista, “this started as a love song to somebody I hadn’t met yet”. Entretanto, acresceu a visão de quem se encontra num relacionamento e, por fim, de quem passa pelo seu término. Talvez por isso, o instrumental da composição dê uma sensação de constante crescimento.

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Podendo, como tantos outros artistas apelar à nostalgia, Fiona Apple opta por uma perspetiva de superação. Através da sua lírica, percebemos que a artista reconhece em alguém o potencial para a amar. Uma vontade que não nega – “I am the woman who wants you to win / And I’ve been waiting, waiting for / You to love me”.

Para além disso, ao longo da composição Apple aproveita para explorar algumas das questões existenciais sobre o estado e funcionamento do mundo, apoiando-se na natureza e no poder da mente. Reconhece que a experiência individual com o planeta baseia-se num estado mental e emocional. Reafirma que o percurso natural da vida é a morte. Acredita que esse é o culminar do ciclo, do qual não aparenta ter medo, e que este corresponde à criação de uma nova etapa, de uma nova vida. “I know when I go / All my particles disband and disperse / And I’ll be back in the pulse”.

A característica, até então, diferenciadora de Fiona Apple – o não apelo à nostalgia do término de um relacionamento -, cai por terra em “Rack of His”. Na sexta música do álbum a artista fala sobre um dos relacionamentos antigos, alguém que amou sem ser correspondida e que a usou como as cordas de uma guitarra. O facto de ter sido manipulada e usada permitiu-a conhecer-se melhor e passar a usar as suas melhores valências – “And I’ve been used so many times / I’ve learned to use myself in kind”.

“Shameika”, uma amiga imaginária ou a pessoa impulsionadora da crença de Apple nas suas capacidades musicais? Nem a própria artista sabe. Uma memória existe e é subtilmente corroborada por uma das suas antigas professoras. Uma escola, uma cantina, uma tentativa de integração que acaba mal, uma rapariga de nome Shameika que se aproxima e diz “Why are you trying to sit with those girls? You have potential”.

A terceira música e intitulação do álbum, “Fetch The Bolt Cutters”¸ é inspirada numa cena da série televisiva The Fall. Após ser torturada, uma rapariga é libertada para a sociedade. O título da composição corresponde às palavras que a personagem de Gillian Anderson proferiu ao polícia encarregado da sua libertação. A partir desta explicação, achamos (pelo menos foi o que eu achei) que se iria tratar da exploração de algo associado com as falhas do sistema e da integração social.

Na verdade, não está muito longe disso. No entanto, partindo de uma abordagem diferente. Com “Fetch The Bolt Cutters” Fiona pretendia falar sobre a libertação de uma prisão, uma prisão imposta por outrem em nós ou uma prisão cujas paredes e grades fomos nós que criamos. Através do “Vulture”, a artista explicou a mensagem global da música: “Fetch the fucking bolt cutters and get yourself out of the situation that you’re in — whatever it is that you don’t like”.

Em “Newspaper”, Fiona Apple dá-nos a conhecer uma dessas prisões. A artista sofreu numa das suas relações pessoais. Um sofrimento que foi apenas noticiado de si para si. Um sofrimento vivido em solidão. Um sofrimento que a aproxima da próxima vítima, uma vez que já sabe o desfecho da história.

É importante referir que sofrer sozinho é uma solução. Contudo, uma tentativa que pode induzir a vários problemas pessoais e sociais. Um desses problemas é a depressão, tema abordado pela artista em “Heavy Balloon”. “You get dragged down, down to the same spot enough times in a row / The bottom begins to feel like the only safe place that you know”.

Mais tarde, em “Relay”, Fiona explora a relação entre um abusador e a vítima. Questiona-se sobre os passos de libertação de um ciclo de dor e, ao mesmo tempo, a incapacidade da sua concretização. Explica, primordialmente, que a maldade é como um desporto, aditiva e contagiosa.

Para além disso, a artista aproveita para enumerar um conjunto de ressentimentos que sentiu ao longo da vida. Desde as coisas mais banais, como uma mulher ser alta (tratando aqui dos ideais pré concebidos de beleza); às coisas mais impactantes – “I resent you presenting your life like a fucking propaganda brochure” – transmissão de uma vida irreal que condiciona a vida dos outros, influenciados a tentar alcançarem algo que, em condições semelhantes, nunca conseguirão alcançar).

De qualquer das formas, trata-se de um jogo no qual a artista não quer entrar, uma vez que estaria a compactuar com aquilo que tanto critica – o ciclo de ódio. “I’d love to get up in your face / But I know it if I hate you for hating me / I will have entered the endless race”.

I would beg to disagree / But begging disagrees with me” corresponde à introdução de “Under The Table”. Aquilo a que chamaria a dicotomia da vida em sociedade. Apesar de termos de perceber o nosso lugar em comunidade, de termos de ter em conta o contexto em que estamos inseridos, de modo a mediar os nossos comportamentos, há certas realidades que vão contra os nossos princípios e simplesmente não as podemos ignorar.

No caso da artista tratou-se de um jantar, daqueles onde é suposto manter a postura custe o que custar. No entanto, alguém disse algo inusitado e a artista não se conseguiu controlar. Por entre avisos debaixo da mesa, Fiona defendeu a sua posição. “I’d like to buy you a pair of pillow-soled hiking boots / … /to help the bodies that you step over along your route / So they won’t hurt like mine”.

Outro assunto sobre o qual a artista não quer manter o silêncio é a descrença em vítimas de abuso sexual. Em “For Her”, Fiona Apple reconhece a necessidade de falar sobre a temática, sem ter medo de usar as palavras certas. Sendo assim, profere – “Good morning / You raped me in the same bed your daughter was born in”.

Através de “Ladies”, a oitava música do álbum Fetch The Bolt Cutters, a artista explora a necessidade de sororidade e de desconstrução social da influência masculina sobre as mulheres. Fiona acredita que existem processos de constante tentativa de distorção da visão feminina que gera, consequentemente, competição desnecessária, castradora e dolorosa.

“Cosmonauts”, inicialmente composto para o filme This is 40, procura explorar o amor eterno. No entanto, não apontando apenas as características positivas de se amar. Com o tempo, a vida quotidiana em casal pode acabar por se tornar num peso. “‘Cause you and I will be like a couple of cosmonauts / Except with way more gravity than when we started off”.

Além de todas as importantes críticas, Fetch The Bolt Cutters apresenta uma dimensão instrumental transcendente. Para quem não estiver atento à lírica, a sonoridade é capaz de satisfazer qualquer ouvinte. Pelo contrário, quem explorar as suas motivações, encontrará nas suas músicas um fade perfeito.