Tigertail estreou a 10 de abril na Netflix. Foi escrito e dirigido por Alan Yang, reconhecido pelo seu trabalho nas séries de comédia Parks and Recreation (2009-2020) e Master of None (2015- ). Em apenas uma hora e meia, Yang prova que tem potencial para escrever histórias de drama com tanta destreza como escreve para comédia.

O diretor inspirou-se em algumas das vivências do pai que, após crescer no seio de uma família pobre, acabou por emigrar. A personagem principal, Pin-Jui, enfrenta o mesmo tipo de dificuldades durante a infância, que acabam por influenciar a juventude e condicionar a forma como passa a idade adulta. Pin começa a trabalhar na mesma fábrica que a mãe, na esperança de guardar dinheiro suficiente para conseguir pagar a viagem de ambos para os Estados Unidos.

Tigertail

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A ambição do jovem, em simultâneo com o desejo de levar a mãe para um sítio mais seguro em que não tenha de trabalhar todo o dia apenas para conseguir ter comida suficiente na mesa, faz com que aceite a oferta do patrão. Se casar com a sua filha, o rapaz tem a viagem para os Estados Unidos paga e, mais tarde, quando angariar dinheiro, a mãe poderá juntar-se a ele. A decisão é tomada rapidamente e o filme não se detém em detalhes desnecessários. Pin também não hesita, absorvendo a audiência nesta sensação de rapidez com que a vida do rapaz toma uma volta de 180 graus.

Todas as expectativas que tinha em relação aos Estados Unidos, toda a energia e música que associava ao país, esvaíram-se mal chegou ao local. O casal vive num pequeno apartamento com praticamente nenhuma mobília, não conhecem ninguém, não conhecem o país e não se conhecem um ao outro. O desconforto entre os dois e o nervosismo de viver num lugar social e culturalmente diferente é palpável. O apartamento é iluminado por uma luz amarelada e doentia, banhando todos os seus recantos e as personagens nesta tonalidade.

Tigertail faz um trabalho exímio em expressar a amargura do passado. Gravado em 16mm, o grão nas imagens evoca a sensação de estarmos, de facto, a ver as memórias de alguém de idade avançada, que começam a desaparecer com o tempo. Tzi Ma, que interpreta a versão mais velha de Pin-Jui, interioriza a personagem com um tormento que transborda do ecrã. As suas expressões são sempre controladas e cuidadosamente pensadas, tal como esperado de alguém cuja perceção da vida foi moldada pelas partes mais cruéis desta e não pelo que de bom aconteceu.

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O intento das sequências do tempo atual seria representar o ciclo de dor que as famílias, de uma forma ou de outra, ultrapassam, criando paralelos entre o passado de Pin e a forma como age no presente. Por exemplo, quando era criança, a avó disse-lhe para não chorar e ser forte. Pin acaba por dizer o mesmo, anos mais tarde, à filha, depois de a menina se enganar num recital de piano. Outro exemplo prende-se nos momentos em que Pin é mostrado a jantar sozinho todas as noites, a olhar para o vazio. Estas cenas estendem-se para a filha, que também se senta à mesa sem ninguém à sua volta.

Contudo, contrastando com o cuidado com que as cenas do passado foram executadas, as do presente ficam aquém das expectativas. O diálogo é pouco natural e forçado, semelhante a algo ouvido numa novela. Talvez seja pelo contraste entre duas cronologias diferentes, ou a estranheza que causa ouvir Angela falar abertamente das suas emoções, depois de nos habituarmos ao silêncio do pai, que estas cenas parecem tão pouco genuínas e fora de sítio. De qualquer forma, retirou alguma da carga emocional que fora anteriormente criada.

A cinematografia e os cenários de Tigertail são no presente também crus e impessoais, como casas que são compradas já com a decoração pronta. Não há nada de hipnotizante que capte o olhar, como a pequena casa de infância de Pin, tão meticulosamente criada. Ainda que a ideia a transmitir seja essa mesma – a frieza do presente -, a discrepância entre as estéticas dos diferentes anos é tão grande e percetível que acaba por ser apenas confuso.

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A longa-metragem entrelaça cada década com o auxílio da música. A mesma melodia, ou uma variação desta, toca durante as diferentes cenas, mais melancólica ou alegre, dependendo do ambiente pretendido. Esta terá sido, possivelmente, a ferramenta que melhor criou um fio condutor entre passado e presente.

Tigertail representa com cuidado e respeito as difíceis decisões que têm de ser tomadas por emigrantes: deixar algumas coisas para trás para que, mais tarde, haja a oportunidade de se ter algo melhor e a forma como, por vezes, os sonhos são penosamente dececionantes. No entanto, algumas das emoções são arrastadas pela constante troca entre o tempo passado e presente, este último com a sensação de ser algo simplesmente forçado.