O futebol regressou aos relvados portugueses quase três meses depois de ter sofrido uma paragem forçada, por culpa da pandemia de Covid-19 que surgiu em todo o globo. Esse período podia ter sido usado para mudar muita coisa, que nos levaram até a pensar ser possível que uma crise mundial colocasse de lado as guerras do nosso futebol. No entanto, não podíamos estar mais errados.

Foi preciso apenas meia dúzia de encontros após a retoma do campeonato para perceber que o nosso futebol continua igual. Continua, permitam-me a expressão, podre. Presidentes continuam a medir egos em praça pública, notícias de eventuais atos ilegais de determinados clubes voltam a surgir e, de repente, damos por nós próprios quase a desejar que o futebol tivesse ficado quietinho como estava.

A retoma trouxe um acontecimento que, felizmente, não se vê todos os dias no nosso país, mas que ajuda a retratar aquilo que deixa de ser um problema meramente futebolístico e passa a ser um problema de uma sociedade profundamente doente e que precisa de mudar. Sim, estou a falar do ataque selvagem ao autocarro do SL Benfica. O que aconteceu não foi alguém que ama imensamente um clube e que, perante um resultado negativo, necessitou de mostrar o seu descontentamento com um apedrejamento. Para isso, existem formas civilizadas de o fazer, sem colocar vidas em risco.

O futebol português já conta na sua história com alguns episódios de violência extrema, e estes parecem estar a tornar-se cada vez mais frequentes. Só nos últimos anos tivemos o atropelamento do adepto italiano do Sporting CP junto ao Estádio da Luz, os atos de racismo dos adeptos do Vitória SC para com Moussa Marega ou o famoso ataque à academia do Sporting CP. Como é que os autores desses atos se justificam? Foi por amor ao clube? Desculpem, mas isso não é amor a um clube ou a qualquer coisa. É criminoso, apenas e só. Por isso digo que o nosso futebol é corrupto, é sujo e está mergulhado num mar de crime.

As pessoas têm de perceber que o jogador de futebol, antes de o ser, é também uma pessoa como todos nós. Uma pessoa com uma família, uma esposa e filhos, que não precisam de passar a estar acordados até de madrugada em dias de jogo só para terem a certeza de que o pai chegou a casa e não levou com uma pedra na cabeça.

A mudança tem de partir de cada um de nós e é necessária com urgência. Está na altura de tirar o futebol do controlo dos criminosos e de o devolver ao seu dono original: o povo. Está na altura de devolver a alegria ao jogo, de podermos ir a um estádio identificados com as nossas preferências clubísticas sem termos de estar sempre a olhar por cima do ombro à espera que um criminoso (recuso-me chamar a estas pessoas de adeptos) do clube adversário nos ataque.

Quando é que vamos realmente evoluir enquanto sociedade e deixarmo-nos destas infantilidades? Não me digam que não é possível, porque países como a Alemanha ou a Inglaterra dizem-nos o contrário. E relembro que a Inglaterra já viveu períodos muito negros no que ao comportamento dos adeptos diz respeito, com os famosos hooligans. Mas olhem agora para o futebol inglês e a evolução está à vista.

O nosso futebol já deixa muitas vezes a desejar dentro das quatro linhas. Não é preciso que continuemos a fazer com que deixe a desejar fora delas também. Este não é o meu futebol, assim como certamente não será o futebol de uma grande parte da população. Está na hora da mudança.