Wendy estreou a 17 de abril nas plataformas digitais e tem tudo para se assinalar entre os filmes de fantasia. O filme de Benh Zeitlin traz, por um lado, um novo significado à história tradicional do Peter Pan. Por outro, carrega muitas mais interpretações para a evolução, crescimento, o ser criança e o ser adulto.

“Eu não vou ser o homem do esfregão e da vassoura” é o mote que empurra o espectador para o mundo do irreal. Thomas, um jovem rapazinho, fiel a este desejo e imposição, parte da sua terra natal, num comboio, e deixa o seu futuro em aberto. A sua partida abisma a cidade e ninguém ousa pensar que a sua ida encaixa com um universo fantástico. Contudo, ele não é o único a decidir escapar.

Wendy

Wendy, que presenciara a fuga de Thomas, mantém-se, também ela, determinada a não ser como os outros adultos. A rapariga escolhe não ser a mulher do balcão ou do restaurante, quer ser a menina das histórias, a criança das aventuras. A sua persistência contagia os seus irmãos gémeos, Douglas e James, que decidem não querer crescer. Com esta vontade, o comboio surge e eles partem também. Onde eles chegam é segredo, é mágico e perigoso. Para onde eles vão é mistério.

Depois de chegarem à audaz Terra do Nunca, o tempo pertence-lhes. O destino, o decidir, o que fazer, como fazer e para onde ir cabe exclusivamente aos meninos perdidos, que são orientados pela Mãe. Nesta ilha há regras e quem não as cumprir terá o seu desejo desfeito e não poderá voltar para casa ou ser considerado filho da Mãe.

A narrativa torna-se eficiente quando um dos meninos perdidos se perde e um outro quebra as regras. Neste limiar da corda bamba, Wendy é confrontada com o envelhecimento e o significado da vida.

Wendy

O filme é, sem dúvida, poderoso. Ao longo do enredo, a voz da protagonista habita as cenas e passa-nos questões e perceções que se apoderam do pensar do espectador e o abismam. Para além disso, toda a narrativa parece ser contada como um segredo, o que parece apaziguar a grande existência do segredo que guarda. Os sons naturais e as gargalhadas explosivas conferem à longa-metragem um clima de ingenuidade e fascínio.

A edificação das personagens é muito subtil: evoluem tão rapidamente aos olhos do espectador que nem se dá por isso. A Wendy, o Peter Pan, o Capitão Gancho e a Mãe são personagens que vão crescendo em significado a olho nu, mas a grandiosidade e a verdade que cada uma carrega não são pronunciadas. O próprio Peter Pan não é tratado como tal e só a breves momentos do fim é que percebemos quem é o Capitão Gancho e o conceito da Mãe.

Dos atores, Devin France (Wendy) e Yashua Mack (Peter) são quem mais se destacam por governarem grande parte da obra cinematográfica. A primeira, com um brio tremendo, apresenta uma protagonista adaptável a todos, enquanto o outro expõe a valentia, a proeza, o vigor e o ânimo tão esperados em Peter. Com as suas incríveis performances, o espectador é confrontado com respostas que nunca se atreveu a dar e com uma definição de vida exuberante e incrível.

Nunca outrora a Terra do Nunca possuiu tanto sentido. Nunca a história de Wendy e de Peter se pronunciou tão mágica. Só conseguimos sentir o seu significado depois de a assistir. E quando terminarmos, somos abalados por uma compreensão exótica e fascinante daquilo que é ser criança e adulto.