UMI presenteia-nos com Introspection. A dualidade intrínseca ao seu álbum comprova as múltiplas versões do nosso ser. Sem tirar nem pôr, a artista entra nas nossas vidas e espelha alguns dos nossos momentos mais felizes e infelizes.

A primeira música do álbum de UMI fez-me, desde logo, refletir sobre a correlação cíclica entre o processo de introspeção e o próprio pensamento. Ataco assim com um pontapé de saída que poderá assustar muitos. No entanto, acreditem que não é motivo para desmotivações.

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Como o próprio nome indica, Introspection corresponde a uma contemplação mental do pensamento. Uma sinonímia que ecoa até à compreensão do fenómeno por parte da artista. Como um artista nunca anda só, creio que o entendimento desta dinâmica chegará a todos aqueles que escutarem a faixa com verdadeira atenção.

Primeiramente, UMI aponta para uma necessidade de libertação. Questiona-se sobre a sua incapacidade de lutar e de expor os seus problemas – “why I’m so afraid to fight back? / I got a lot of shit to unpack”. Por fim, aponta o reconhecimento da introspecção como um procedimento nato, puramente mental e, por isso, passível de controlo.

Como não poderia deixar de ser, UMI faz jus ao seu nome, comparando a introspeção com o mar. “It’s all in my mind, it’s only emotion / Just look for a sign and swim into the ocean”. Por entre tanta repetição cromática, há no mar imenso a possibilidade de nos perdermos. O mesmo acontece com os nossos pensamentos e emoções. Ao invés de pânico, a artista aconselha o seu reconhecimento e exploração.

Ao longo de 2 minutos e 48 segundos, “Introspection” recorre também a uma repetição sonora. Não falo apenas da repetição instrumental, falo da reincidência de uma batida pouco desfasada do que já feito. De qualquer das formas, a voz de UMI permite-nos ficar submergidos no eco.

Infelizmente, a nível instrumental nada parece mudar em “Open Up”. O tema principal da música vai também de encontro a uma das temáticas mais tratadas no universo musical, o amor. Neste caso, UMI explora as inseguranças e a utilidade indispensável de abandonar o passado. Para além disso, não é uma música que aborda unicamente um coração partido.

“Open Up” emerge da escolha dolorosa entre magoar a pessoa que nos ama e fazer aquilo que para nós é melhor. A culpabilização pelo sofrimento de outro alguém e o repúdio pelo egoísmo. Mas quem melhor do que a própria artista para nos explicar – “No more goodbye / I’m scared to make you cry / Can’t look you in the eye (In the eye) / I prayed for peace of mind”.

“Abrir-se” creio que seria a tradução literal de “Open Up”, tendo em conta a proposição da artista, é claro. Uma tarefa, pelos motivos enumerados anteriormente, difícil de executar. De qualquer das formas, é através desta abertura que UMI procura esclarecimento, compreensão e libertação coletiva.

Ora portanto, devido ao seu nome, “Where I Wander”, calculei que a terceira música de Introspection me iria posicionar na situação atual de UMI. Um posicionamento claro e atual. Poderá ser apenas um fracasso matemático com respostas perdidas num rascunho. Talvez até pior do que isso, “Where I Wander” veio sem solução.

Somos convidados a entrar na sua história. Tal como a chegada de um comboio, um som estranhamente reconhecível, mas sem identificação, leva-nos ao embarque. Sons diversos atacam-nos. Uma delicadeza intensa e, por isso, confusa. A voz de UMI entra. Aquilo que me parecia uma discussão familiar torna-se num posicionamento social face ao mundo, que, por sua vez, se torna numa tentativa de curativo.

O enunciado deixa-me dúvidas. Será mesmo uma discussão familiar? E, mais importante do que isso, quem será a pessoa que foge da casa? Poderá ser a artista a rever-se tal como num espelho? Creio melhor deixar estas dúvidas, talvez esteja a procurar significado onde ele não existe. Partiremos da premissa que UMI se refere a seu pai.

Daquilo que percebo (mais uma vez, poderá estar errado), o pai de UMI precisa de ajuda. Apesar da frieza na brevidade da artista, o conselho de UMI é simples: aceitar aquilo que o mundo nos oferece, sendo que aquilo que temos em retorno deriva das nossas escolhas passadas, e tomar precauções neste que é o nosso inferno.

Após uma reflexão ordenada de Introspection, acredito que UMI dividiu, propositadamente, o seu EP em dois estados distintos – barreiras emocionais e a esperança de mudança. Uma dualidade que acompanha todos nós. Esta transição fica marcada pela quarta música do álbum, “Bet”.

Apesar da dificuldade de abandono de um relacionamento em “Open Up”, “Bet” conta-nos o deixar para trás de um relacionamento tóxico. UMI explica, desde logo, que o seu parceiro era infantil (“Always tryna play, this ain’t recess”), desonesto (“This ain’t how you walk, don’t bluff”) e inútil (“And you on some clown shit”). As metáforas tornam esta faixa monotemática interessante e, até certo ponto, engraçada.

Por sua vez, “Pretty Girl hi!” fala-nos das borboletas na barriga, da esperança num novo amor. Esta esperança faz com que a introdução da música se aproxime de alguém que está a falar com um animal ou de uma criança a pedir um doce aos pais. Por entre pausas e confusões discursivas, UMI apresenta-nos o seu apaixonado.

Infelizmente (não no sentido dramático), UMI ainda imagina a possibilidade de estar junto de tal pessoa. O reconhecimento desta vontade não passa despercebido, visto que a artista o repete (deixem cá ver) 13 vezes ao longo da música. Esperemos que o número do azar não estrague os planos: “Maybe we (Uh) / Could dance in just our baggy jeans / We could smoke under the laser beams”.

Love doesn’t grow in the middle of the garden”, esta é a primeira frase de “Broken Bottle”. Apesar da capacidade criativa de UMI, esta é também a frase mais marcante de todo o álbum. A última faixa de Introspection fala-nos sobre a aceitação, de ânimo livre, do término de um relacionamento. Mais do que a aceitação do término de um relacionamento, fala-nos sobre a compreensão dos motivos do seu fracasso.

Devemos ceder às instruções dos nossos ecos? Não serão eles as respostas às nossas questões pessoais? Apesar da proposta de UMI, Introspection não nos dá todas as respostas. No entanto, permite-nos refletir sobre a nossa relação com o pensamento.