Terra de Ninguém estreou há dezanove anos sob a direção do bósnio Danis Tanovic. A longa-metragem relembra-nos o barril de pólvora que são os Balcãs e como o ódio pode ser dissipado na terra de ninguém.

Bósnia e Herzegovina, 1993. Para muitos, um passado esquecido. Para outros, um passado demasiado recente e ainda vivo. A minha geração somente reconhece a guerra nos Balcãs por meio de livros, filmes ou documentários. A última década do século passado moldou a história. Apelidado como o pior conflito após a Segunda Guerra Mundial, a guerra da Jugoslávia iluminou o lado mais negro do Homem. Uma guerra civil sangrenta onde atrocidades impensáveis foram cometidas. Um período abraçado pelo ódio animalesco e destrutivo. Algo que, se possível, decidíamos esquecer.

A obra cinematográfica retrata o epicentro do conflito e o período mais crítico da guera. Bósnios lutam pela independência e Sérvios exigem o poder máximo sobre as restantes repúblicas da Jugoslávia. No entanto, quando os dois lados se encontram na terra de ninguém, a questão de a quem o poder pertence é levantada. Ciki, combatente bósnio, e Nino, defensor da bandeira sérvia, ficam presos em plena fronteira de guerra. Sob pena de serem atingidos por balas perdidas, Ciki e Nino são forçados a conviver num ambiente hostil e desconfortável.

Numa tensão sentida no ar, estes dois soldados de lados opostos tentam evitar o inevitável, o diálogo. E de uma forma algo cómica, Ciki e Nino trocam insultos e acusações. Apesar de ambos entrarem com o pé esquerdo, o diálogo acontece.

O argumento, também escrito por Tanovic, ganha singularidade com conversas que expelem ressentimento e amargura, numa situação cujas personagens não podem escapar. Talvez seja exatamente isso que é necessário, o diálogo. Quando o peso do ódio intrínseco é levantado dos seus ombros, Nino e Ciki apercebem-se que são dois lados da mesma moeda. São vítimas de uma ideia baseada no extremismo e numa violência inegociável.

Mencionar a música inicial de Terra de Ninguém é obrigatório e inevitável. Uspavanka, que traduzido para português significa canção para adormecer, é cantada por Alma Bandić nos momentos iniciais do filme. A letra sobre perda relembra todo o conflito e surge enquanto o som de marcha típica de exército. A voz de Alma Bandić, num registo emotivo e vulnerável, transpira dor e o horror vivido na guerra.

Nada surge ao acaso, assim como este arquivo. O passado mês de julho marcou 25 anos desde o Massacre de Srebrenica, região na zona leste da Bósnia e Herzegovina. Também conhecido por Genocídio de Srebrenica, foram quinze dias onde por volta de 8000 bósnios muçulmanos foram  assassinados de forma fria e cruel.

Dizem que é importante conhecermos a história para não a repetirmos. Todos a conhecemos, ainda que de forma muito breve. Porém, continuamos a ser testemunhas de uma cassete que tem sido tocada vezes sem conta. Talvez a vulnerabilidade e o desconforto a que o passado nos expõe seja fórmula. O passado deve ser relembrado, de modo a que o presente não seja a sua encarnação. Não existe uma solução imediata para todos os problemas do Homem. Porém, falta-nos oportunidade. Oportunidade de diálogo, onde todos os lados possam ser igualmente ouvidos. E foi com Terra de Ninguém que Danis Tanovic, para além de receber o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, manteve vivo os espíritos de todos aqueles que perderam as suas vidas. Relembrar o passado para compreender o presente e mudar o futuro.