Em conjunto com o lançamento do novo filme Black Is King, Beyoncé disponibiliza a versão deluxe de The Lion King: The Gift, constituído por 17 faixas. Em colaboração com vários artistas africanos e afro-americanos, Beyoncé representa, celebra, homenageia e honra toda a comunidade negra.

O melhor presente que os entusiastas da Disney receberam, em 2019, foi o remake do clássico animado de 1994, The Lion King. Além da natural e espectável nostalgia, vários artistas culturalmente relevantes deram voz às personagens igualmente icónicas, entre eles Beyoncé, Childish Gambino e Seth Rogen.

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No documentário Making The Gift, lançado em setembro do ano passado, pode ler-se: “inspirada pelo filme The Lion King, Beyoncé cria o álbum The Gift como uma carta de amor a África”. Quase um ano depois, Beyoncé apresenta uma versão atualizada desse tão aclamado projeto, em conjunto com o lançamento do filme Black Is King.

O álbum abre com o tema “BIGGER”, uma das baladas mais poderosas, encorajadoras e edificantes da carreia da artista. Não nos restam dúvidas que a voz de Beyoncé atingiu o auge: o registo grave revela-se, agora, bastante sólido, potente e simultaneamente suave. Em “BIGGER”, este registo contrasta com as notas agudas muito bem executadas na “ponte” da canção.

A percussão, os backing-vocals e o arranjo musical funcionam como a “Santíssima Trindade” desta faixa, por tão subtilmente enfatizarem as palavras de Beyoncé. Com influências claras de Rap e música Gospel, “BIGGER” é mais uma prova do poder vocal de Beyoncé e das suas letras.

São vários os artistas que tentam incorporar afrobeats nos seus projetos. Beyoncé parece ter encontrado a forma perfeita de o fazer: trabalhar diretamente com produtores africanos. Bubele Boii e Magwenzi transformam a faixa, “FIND YOUR WAY BACK“, num tema de rítmica alegre, simples, mas memorável. Para além de funcionar como um tributo às lições que o pai (e ex-manager) lhe ensinou, simboliza também o início da jornada de Simba quando este regressa para ocupar o seu lugar no trono.

Seguem-se duas colaborações: “DON’T JEALOUS ME” e “JA ARA E”. A primeira alista Tekno, Lord Afrixana, Yemi Alade e Mr. Eazi, e é mais orientada para o Hip-Hop. O produtor P2J cria uma atmosfera sonora muito bem conseguida, na qual se destacam a percussão e o baixo elétrico. “DON’T JEALOUS ME” tem tudo para permanecer firmemente plantada nas pistas de dança africanas.

Para além de Beyoncé, Burna Boy é o único músico a conseguir uma faixa a solo em The Lion King: The Gift. Em “JA ARA E”, Burna Boy canta em iorubá (idioma nigeriano) e em inglês sobre como se manter firme e focado na família. Apesar deste tema mais íntegro e sério, a melodia leve e tranquila coloca-nos em modo “piloto-automático”; é impossível para de abanar a cabeça ou bater o pé.

Baseada apenas nos artistas, “NILE” já é monumental. Marca a segunda colaboração de Kendrick Lamar e Beyoncé depois de “Freedom” (2016). Com pouco menos de dois minutos, é possivelmente a faixa mais intrigante de todo o álbum. Desde o jogo de palavras “in the Nile” (no Nilo) e “in denial” (em negação) à constante alusão ao simbolismo da água, constitui um tema multidimensional.

Além disso, inclui referências à resiliência e beleza dos negros (“Darker the berry, sweeter the fruit”). Vítimas de discriminação racial e da supremacia branca, o povo negro continua a persistir e a procurar orientação juntos dos seus ancestrais, aprofundando as suas raízes (“Deeper the wounded, deeper the roots”).

Em “MOOD 4 EVA”, Beyoncé colabora com JAY-Z, Childish Gambino e Oumou Sangaré. Os produtores Just Blaze e DJ Khaled unem-se na criação de um instrumental afrobeat escaldante e tropical. A introdução conta com um sample de “Diarabi Nene”, uma canção da própria artista maliana Oumou Sangaré.

Segue-se Beyoncé que oferece, uma vez mais, uma performance Rap excecional. Dirige-se aos seus “haters” e aconselha-os: “Stay in your struggle”. JAY-Z junta-se à sua esposa no pré-refrão antes de arrasar o segundo verso. A “ponte” de Childish Gambino vem adicionar a quantidade certa de sensualidade. “MOOD 4 EVA” é enérgico, divertido e sensual. Cada artista envolvido mostra-se orgulhoso de estar vivo e de ser negro.

Em “WATER”, Pharrell Williams e Salatiel (músico natural da Républica dos Camarões) juntam-se a Beyoncé numa troca sensual de palavras. É uma verdadeira ode ao amor com quantidades idênticas de inocência e atrevimento. Liricamente, esta sétima faixa aborda os temas mais amplos do álbum: a espiritualidade, o amor, o sol, a lua, a água e a natureza, em geral.

BROWN SKIN GIRL” é, talvez, a melhor canção em The Gift e uma das mais importantes da carreira de Beyoncé. As mulheres negras, nomeadamente as de pele mais escura, são frequentemente vítimas de desigualdades socioeconómicas por causa do seu tom de pele. Sendo mãe de duas meninas negras, Beyoncé junta-se a Wizkid e SAINt JHN para criar esta faixa que celebra e enaltece a beleza e o poder imensuráveis das mulheres negras.

Blue-Ivy, a filha mais velha de Beyoncé integra, inclusive, o grupo de intérpretes, cantando em uníssono com SAINt JHN, enquanto Wizkid e Beyoncé se envolvem em harmonias hipnotizantes. Com referências a Naomi Campbell, Lupita Nyong’o e Kelly Rowland, “BROWN SKIN GIRL” homenageia a feminilidade negra, merecedora de mais respeito e amor.

Na faixa seguinte, “KEYS TO THE KINGDOM”, Tiwa Savage e Mr Eazi juntam-se para relembrar Simba de que ele é a “chave do reino”. Esta é provavelmente a canção que mais se encaixa na narrativa do filme, mas funciona igualmente bem sozinha, graças às suas influências Reggae e de House Music.

É Major Lazer quem assina a produção elegante da próxima faixa interpretada por Beyoncé e pelo cantor ganês Shatta Wale. “ALREADY” resulta da combinação do Rap, do Afro-Pop e possui ainda alguns apontamentos de Dance Music. Wale oferece uma performance vocal de rítmica rápida e bem marcada, que acompanha a sequência de melismas e harmonias que a vocalista vai explorando ao longo da canção. O baixo elétrico acompanhado de palmas edificantes enfatiza a temática da canção: atitude, confiança e poder.

Beyoncé brinda-nos com mais uma balada intitulada “OTHERSIDE”. Faz-se acompanhar por uma orquestra que confere um toque dramático e algo cinematográfico ao tema. A faixa atinge o clímax perto do fim quando ouvimos Beyoncé cantar “Mababu Katika Mawingu”, explorando um registo bastante grave para uma voz feminina. A expressão suaíli significa “ancestrais entre as nuvens” e alude ao momento em que Simba comunica com o pai através das estrelas.

Com uma produção intensa de Beyoncé e DJ Lag, “MY POWER” é uma canção edificante sobre a resiliência, a militância, a coragem e o poder da feminilidade negra. O hookThey’ll never take my power”, interpretado por Nija e Beyoncé, é bastante enfático e traça, logo de início, o caminho que a canção vai percorrer. Seguem-se os versos de Tierra Whack, Busiswa, Yemi Alade e Moonchild Sanelly que carregam a faixa com uma energia intercultural inigualável.

Bem menos energético e alegre é o tema, “SCAR”, uma colaboração entre a canadiana Jessie Reyez e a rapper afro-americana 070 Shake. É talvez a canção mais dececionante de todo o álbum: ao invés de impressionar pela dimensão das performances vocais, destaca-se pela produção musical. A meu ver, o instrumental de “SCAR” funcionaria melhor como um interlúdio já que em nada de assemelha com as restantes faixas ou com o que elas nos fazem sentir.

Segue-se “SPIRIT”, escrito e produzido por Beyoncé, Ilya Salmanzadeh e Labrinth. Trata-se de uma balada poderosa de influências Gospel, que nos fala sobre assumir o controlo do destino e reunir a coragem e força para fazer o que nos parece impossível.

O “Santo Graal” em “SPIRIT” é, sem dúvida, a voz de Beyoncé. Nesta faixa de quatro minutos, a artista executa melismas perfeitamente posicionados para “saltar” entre as várias oitavas. A sua performance vocal é acentuada pelos acordes de piano – que ecoam antes do refrão – e pela percussão – produzida por Labrinth – ao longo da música.

Ilya usa o seu talento para a produção Pop para unir todos estes elementos, mas são Labrinth e Beyoncé quem dão vida à canção. Destaco, também, a mudança de tonalidade perto do final da canção, à qual se junta um coro formado por backing-vocals e camadas de harmonias da própria Beyoncé. No mínimo, arrepiante.

BLACK PARADE”, o single que Beyoncé lançou no Juneteenth (feriado que celebra o fim da escravatura nos EUA), conquista o seu lugar em The Lion King: The Gift (Deluxe Edition). Na verdade, conquista-o duas vezes – a versão mais longa aparece como 15ª faixa enquanto a versão mais curta fecha o álbum.

Tal como acontece ao longo de todo o álbum, “BLACK PARADE” mistura música africana com R&B, Hip-Hop, Rap e Pop. Além disso, há um propósito social muito consistente e  bem conseguido: representar, empoderar, emancipar e celebrar todas as vidas negras. Numa perspetiva mais pessoal, Beyoncé fala-nos orgulhosamente dos seus antepassados, das suas raízes africanas, da sua cidade natal (Houston), da sua feminilidade e maternidade.

Entre as duas versões de “BLACK PARADE” podemos ouvir um remix de “FIND YOUR WAY BACK” produzido por Melo-X. Embora não se destaque especialmente, esta é provavelmente a música mais indicada para um remix, pelo seu ritmo mais alegre.

Sei que esta se trata de umas das melhores e mais importantes obras do século quando, depois desta análise, há ainda tanto por dizer. A minúcia, o tempo e a energia investidos em cada detalhe é arrebatador. A meu ver, o álbum funciona melhor sem os interlúdios presentes na versão original e faz todo o sentido ter sido adicionado o single BLACK PARADE”.

Para além de incorporar com sucesso a narrativa do filme, The Lion King: The Gift (Deluxe Edition) é uma plataforma brilhante. As vitórias passam por reunir artistas extremamente talentosos, dar a conhecer a beleza dos ritmos africanos e, ainda, celebrar, homenagear e honrar todas as vidas negras. Mais uma vez, Beyoncé elevou este último projeto a um patamar que só ela pode alcançar.