O sol de Riccione, uma bandeira azul e uma enciclopédia de romances. O filme, lançado em julho na Netflix, retrata um sonho que suaviza a realidade e que vai ao encontro das expectativas dos mais jovens. Explora, ainda, o espelho da boa vida e o questionamento da vida boa.

“O que acontece em Riccione fica em Riccione.” Apesar da não obrigatoriedade de secretismo, ao longo de 1 hora e 42 minutos, esta é a frase que nos martela. A proposta do filme italiano é bastante simples, um grupo de jovens parte numa aventura de Verão. Desolados pelo que o futuro lhes reserva, tentam aproveitar toda e qualquer experiência.

Seria assim de esperar que o filme correspondesse a uma coletânea (como tantas outras há por aí) de vivências intensas e pouco saudáveis. No entanto, por entre alguma dessa insanidade, O Sol de Riccione preocupa-se com a transmissão de mensagens essenciais. Cada um destes jovens apresenta os seus problemas e inseguranças, que vão sendo desbravados ao longo do filme.

Cegueira. Longe de mim querer parecer insensível, contudo, esta parece-me ser uma das palavras mais corretas para resumir o filme. Sem incorrer em informante despropositada, a obra cinematográfica explora a verdadeira ausência de visão e uma névoa advinda do coração. Não podemos dizer que nos enganaram a vida toda, sempre nos disseram que o amor é cego, uma das provas está aqui.

O Sol de Riccione apresenta, essencialmente, três personagens principais. Como a regra manda, iremos seguir a ordem anterior. Comecemos então com Vincenzo, um jovem invisual com assistência permanente de sua mãe. Apesar da relação íntima e carinhosa com a progenitora, o rapaz procura aquilo que qualquer jovem adulto anseia, a liberdade.

Será através da vida de Vincenzo que temos acesso à inserção de uma pessoa invisual em contexto social. Afastando-se das grandes maiorias dos filmes, O Sol de Riccione não explora afincadamente o preconceito, preocupa-se sim com a demonstração da capacidade de adaptação. A adaptação de Vincenzo torna-se mais facilitada graças à presença de Furio, um pinga amor sem qualquer sucesso.

Furio corresponde também a uma das personagens mais engraçadas de todo o filme. A sua apresentação dá-nos a conhecer um entendido em relacionamentos, uma pessoa experiente no campo amoroso. No entanto, rapidamente percebemos a sua incapacidade de cativar mulheres. Para além disso, a sua personagem permite-nos explorar a dificuldade em cumprir as expectativas dos nossos familiares.

De qualquer das formas, corresponde ao criador da metáfora imortalizada do filme – “As raparigas dividem-se em duas categorias. Carbonaras sem natas e carbonaras com natas. Numa carbonara as natas não são necessárias, as melhores não têm natas. Não são tão atraentes, mas têm um sabor autêntico.” Ressalvo que algumas das suas expressões podem ser entendidas como atos machistas, mas é aqui que entra a simbiose entre Vincenzo e Furio, Vincenzo relembre-o da essência das coisas e chama – o à razão.

Contrariando o que referi, a obra deixa, de facto, subentendido um certo auto receio e um pré-julgamento familiar relacionado com a invisualidade de Vincenzo. No entanto, estes dois conceitos são desmontados muito rapidamente. O grupo de amigos de Vincenzo dá-lhe a força para não desistir e a sua mãe apercebe-se da necessidade de deixar o seu filho crescer. Duas das lições que destaco de todo o filme.

De seguida, temos Marco. A segunda personagem principal corresponde a um jovem prevenido e, por oposição a Vincenzo, independente. Já com alguma liberdade conquistada, aquilo que mais deseja é ganhar o coração da sua amada. Este será então o primeiro protagonista cujo sentimento aparenta ludibriar a sua visão.

Antes de avançar, gostava ainda de relembrar aquele que pode ser considerado o coadjuvante de Marco. Após anos e anos de sucesso com as mulheres, Gualtiero, ex-nadador-salvador, surge como a pessoa ideal para ajudar Marco. No entanto, o encobrimento propositado do amor, trocado por supérfluas relações, aparenta dissuadir Gualtiero da verdadeira capacidade de conselheiro. De qualquer das formas, as suas intervenções alegram qualquer um e deixam o desejo de obter tal perícia de reconhecimento da personalidade das pessoas apenas através da observação.

Por fim (apesar de ser a primeira personagem a nos ser apresentada), contamos com Ciro, um músico principiante que, na verdade, não sabe o que quer da vida. Como o próprio refere, apenas quer ser alguém, “mas é preciso disciplina e talento. Tens de te esforçar e talvez eu não queira.” Mais uma vez, o filme põe à prova o fim de uma etapa da nossa vida e a necessidade de investirmos no nosso futuro.

Por falta de talento ou infortúnios desta nossa vida, Ciro vê a sua oportunidade fugir-lhe por entre os dedos e acaba como nadador-salvador. Nada temam, digamos que a sua profissão de verão lhe trouxe inúmeras vantagens. Querem adivinhar? Seguindo os passos de Gualtiero, consegue angariar um quarto, amigos e a atenção feminina. Apesar disso, mostra-se fiel à sua namorada. Irá ser capaz de resistir?

Apesar de leiga no mundo cinematográfico italiano, devo dizer que O Sol de Riccione encontra-se recheado de jovens atores de extrema qualidade, nomeadamente: Lorenzo Zurzolo (Vincenzo), Saul Nanni (Marco), Cristiano Caccamo (Ciro), Fotinì Peluso (Guenda, amada de Marco) e Ludovica Martino (Camila). Para além disso, conta com atores de renome, como Isabella Ferrari (mãe de Vincenzo) e Luca Ward (Lucio).

Ademais, a obra cinematográfica apresenta um leque recheado de composições sonoras. A primeira é-nos dada a conhecer na introdução do filme. Acompanhada de paisagens apaixonantes da região italiana, Riccione, do grupo musical Thegiornalisti, resume o que iremos presenciar. “Os navios zarpam / As praias queimam / Selfies de raparigas na casa de banho / A noite é uma criança / Conta-me sobre o amor para que amanhã eu esteja em pedaços”.

Apesar de O Sol de Riccione ressalvar reflexões interessantes, estas perdem-se por entre a leveza do filme. Após o seu término, memórias ficam. Contudo, difusas. Se vos perguntarem o que ficou, creio que a resposta é simples, “é mais um típico filme de verão.”