Em tempos fora do comum, a Covid-19 alterou a vida de todos os setores da sociedade, e a área da dança não foi exceção. A alteração da tipologia das aulas, a mudança de paradigma dos grupos etários que apostam nesta arte, a incerteza em relação ao futuro e a criação de estratégias de forma a manter a segurança de todos são hoje uma realidade com que os diretores das escolas de dança têm que enfrentar.

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Joana Mafalda Gomes/ComUM

No meio deste contratempo, a luta para que a chama pelo gosto da Segunda Arte não se apague e a manutenção das escolas são a base da luta de José Carlos Bacelar, Diana Sá Carneiro, Ana Cristina Silva e muitos outros diretores de espaços de dança ao longo do país. O ComUM conversou com eles para perceber como foi a paragem repentina e os constrangimentos do regresso sob a ameaça do vírus.

“As pessoas têm necessidade de viver”

O presidente da Apolo Braga, José Carlos Bacelar, revela que “foi muito complicado” quando a 10 de março a escola fechou e só reabriu a 8 de junho. A maior dificuldade veio do facto de que as quotas mensais das aulas eram uma fonte de mantimento daquele espaço e, com o encerramento, tal remuneração deixou de existir.

Após a reabertura da escola, a existência de circuitos de movimentação, o uso de máscara, as aulas sem pares e o distanciamento de nove metros entre os alunos são as medidas em vigor para que as aulas se mantenham e a segurança seja assegurada. No entanto, há quem receie ingressar no mundo da dança, nomeadamente os mais velhos, onde há uma quebra nas inscrições. “Os adultos são mais receosos, não aparecem tanto”, refere o presidente.

No que toca a competições e espetáculos, José Carlos Bacelar afirma que “não estão previstas competições a curto prazo”. Do mesmo modo, a Gala Apolo Braga, que apresenta o trabalho desenvolvido na escola ao longo do ano, não se realizou em 2020 devido à pandemia.

Porém, nem tudo é mau. O dirigente da Apolo Braga declara ter havido um bom número de alunos nas inscrições, um crescimento que não estava nas expectativas. O número é justificado pela necessidade de viver das pessoas, segundo o diretor.

“Está tudo numa incógnita muito grande”. É deste modo que José Carlos Bacelar olha para o futuro. O presidente acredita ainda que até dezembro não se vai fazer o que quer que seja, mas a partir de janeiro já se vê o que é que pode acontecer.

“Ninguém estava à espera, foi muito avassalador para muitas estruturas”

A diretora da Ent’Artes, Diana Sá Carneiro, revelou que, após o encerramento do espaço, o gosto pela dança podia dissipar-se, mas depressa percebeu que não. O online foi a ferramenta adotada para contornar a interrupção das aulas presenciais e manter a motivação dos alunos.

Nesta escola, foram criadas outras dinâmicas, como aulas diárias e novas programações, para que a forma de ensino online se tornasse o mais apelativo possível, em especial para os mais novos. Esta alternativa, demonstrou ser um sucesso, com um espetáculo online a 26 de julho.

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Joana Mafalda Gomes/ComUM

Com a recente reabertura do espaço, são seguidas as medidas indicadas para as áreas de desporto e ginásios por parte da DGS. Há desinfeção, uso de máscara, medição da temperatura e a proibição da entrada dos pais. “Tem corrido bem”, reflete Diana Sá Carneiro.

Apesar de os diversos espetáculos terem sido cancelados, nomeadamente o espetáculo de final de ano, “Ent’Artes  Convida”, o futuro parece risonho com a subida ao palco marcada para dia 3 de outubro no Altice Fórum Braga. “Está toda a gente desejosa por voltar a dançar”, rematou a diretora.

A nível de futuro, a dirigente da escola declara que é vivido “um dia de cada vez”. Para além disso, destaca ainda o aproveitar o momento como a melhor opção, sem ligar a “futurologias”.

“No online é mais difícil do que no presencial”

A diretora da Bracara Team, Ana Cristina Silva, revelou que a escola encerrou a 15 de março. O que era uma ideia inicial de prolongar o fecho por apenas 15 dias, esteve longe da realidade, visto que só em julho é que retomaram as aulas no local.

De forma a contornar o encerramento prolongado, o online surgiu como a melhor opção. “Foi um choque”, afirmou Ana Cristina Silva, pois a dança desportiva requer espaço e, no caso da dança a pares e em grupo, existe essa necessidade. A aposta num lado mais técnico foi a solução, onde cada aluno trabalhou, em casa, elementos como a postura, os pés ou o ritmo.

Relativamente ao feedback nesta situação, a diretora da Bracara Team sublinha que “foi bom”, visto que o online surgiu como uma oportunidade de ser dado mais ênfase ao individual dos atletas. No entanto, não escondeu que tudo “no online é mais difícil do que no presencial”, pelo que o método só será utilizado em casos excecionais.

As regras impostas pela DGS são as seguidas no estabelecimento, onde a dança de competição está proibida de treinar. Regressaram porém as aulas a solo, em grupos de pessoas, mas de forma individual. A não utilização de máscara só é feita com o distanciamento de três metros, no entanto, para segurança de todos, esta distância mantém-se mesmo com a máscara. Caso os alunos necessitem de recuperar o fôlego entre as coreografias, há spots onde o podem fazer.

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Joana Mafalda Gomes/ComUM

O mundo da dança não parou. O online serviu como “tábua de salvação” para a manutenção das aulas nas escolas de dança. Com o regresso ao presencial, existem regras a ser cumpridas, mas os testemunhos acima são o espelho da paixão e da resiliência por uma arte que envolve muitas pessoas e muitas vidas. Agora, o compasso é ao som da pandemia, mas o que importa é não parar.

Entrevistas: Marta Lima

Imagem e Edição: Joana Mafalda Gomes