José Cid (1971) é o primeiro álbum a solo do artista homónimo que conta com contributos de nomes como Jorge Amado, Fany Mpfumo e Natália Correia, bem como um tema de Gilberto Gil. Considerado por muitos um dos melhores álbuns do Pop-Rock nacional, é o primeiro projeto a solo de José Cid a ser aprovado pela censura, depois de, em 1969, Lisboa Camarada ter sido rejeitado.

Mas o que viria a tornar-se, segundo o próprio, “no homem que teve mais êxito do que Elton John se este tivesse nascido na Chamusca” foi, há muito muito tempo, um jovem e ambicioso músico cheio de crítica social esfarrapada para declamar. Acompanhado por uma mistura progressiva de distorção eletrónica, instrumentos de sopro e cordas orquestrais que conseguem compensar a superficialidade lírica deste primeiro tema, é com uma sátira amarga à burguesia Lisboeta que José Cid abre o seu LP com “Não Convém”.

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Depois de perguntar insistentemente ao sultão o que fez da sua alegre menina enquanto um solo de cravo e um instrumental épico formam o ambiente musical da clássica “Gabriela Cravo e Canela”, segue-se “Olá Vampiro Bom”, num registo marcadamente mais Folk.

Requiem” redime até certo ponto a mediocridade vocal das faixas anteriores, mantendo o brilho instrumental que caracteriza este e muitos dos trabalhos de José Cid. O mesmo acontece em “Nunca”, embora contando agora com um instrumental com toques suaves de Blues e um órgão que faz lembrar o Gospel.

Depois, num registo inédito, ouvimos o que podia ser uma lenga-lenga ou canção de embalar no solo vocal-piano de “O Dragão”. À semelhança do que acontece em “Não Convém”, é o final exclusivamente instrumental que salva “Dom Fulano” do tédio que serve de tema principal da canção.

Lisboa Ano 3000” serve quase como um dos mais convincentes debunks do suposto génio de José Cid, pelo menos antes de 1978. Aclamado pela “mistura acústico-eletrónica”, a faixa dificilmente sobrevive ao chamado “teste do tempo”- conceito que determina o génio intemporal de várias composições ao longo da história. Este teste torna-se especialmente verdade se se tiver em consideração que a faixa sai na mesma altura que, por exemplo, o primeiro e homónimo álbum dos Kraftwerk.

Entende-se, assim, que certas “ousadias musicais” ganhavam um estatuto e reconhecimento muito desproporcional pelo seu “valor de novidade”, especialmente na primeira metade da década de 70, graças, pelo menos em parte, aos esforços da censura para silenciar a vanguarda artística em Portugal. Criou-se assim um jet lag na sensibilidade cultural da sociedade Portuguesa quando comparada às nações livres de censura da época, que contribuiu para a inflação excessiva do ego de figuras como a de José Cid, entre outras. Não obstante, há quem considere “Lisboa Ano 3000” como um precursor estilístico embrionário de 10.000 anos depois entre Vénus e Marte, e por essa ótica já é possível valorizar o que 7 anos de aperfeiçoamento estilístico fizeram por um conceito inicialmente sobrevalorizado.

O estilo Folk de “Vampiro Bom” volta à carga com “Volkswagen Blue”, numa cover do tema de Gilberto Gil onde tanto o instrumental como a tentativa de sotaque brasileiro deixam muito a desejar. Em “Ni Helile” existe um xilofone, um contributo do “rei da marrabenta” e pouco mais.

O cravo e os acordes sinfónicos românticos que escutamos em “Gabriela Cravo e Canela” voltam em “Meu Amor” com uma lírica que não podia ser mais cliché. As despedidas fazem-se com “Amigos”, uma road song sobre a amizade que finaliza o álbum com um sentimento agridoce.