Jerry Lee Lewis é um cantor, compositor e pianista norte-americano, considerado por muitos como um dos pioneiros do rock’ n’ roll. Caraterizado pela energia frenética em palco – e também pela vida controversa – celebra hoje 85 anos de vida e de talento.

Oriundo de Loisiana, o artista tinha um talento natural para o piano desde pequeno, começando a tocar com apenas 9 anos. Apesar de fazer parte de uma família pobre, os seus pais conseguiram um empréstimo para comprar um piano ao hipotecar a própria casa. Num espaço de um ano, Jerry já desenvolvera um estilo único de tocar – uma mistela de boogie-woogie, country e gospel.

Com 14 anos, quando já tinha demonstrado todas as suas potencialidades musicais, Lewis estava pronto para uma carreira neste meio. Nesta altura, a mãe inscreveu-o num colégio religioso no Texas. No entanto, a irreverência e espírito selvagem de Jerry levou a que, três meses depois, fosse expulso.

A partir desse momento, levou uma vida muito agitada, com dois casamentos e uma leve sentença na prisão. Aos 21 anos foi contratado pela editora Sun e lançou o seu primeiro single em 1956 – “Crazy Arms” – que alcançou um êxito considerável. Um ano depois, o piano e o puro som rock de “Whole Lotta Shakin’ Going On” renderam-lhe fama internacional. Seguiu-se logo “Great Balls Of Fire”, o seu maior sucesso e um dos marcos na história do rock.

Jerry ganhava notoriedade com os espetáculos cheios de energia e loucura- foi aí que se tornou o mais recente e empolgante artista do rock’ n’ roll. Passou a ser conhecido como The Killer (O Matador) e conquistou o respeito do mundo da música.

Contudo, por muito sucesso que Lewis tinha na altura, o artista semeava as sementes da sua própria destruição. Em 1958, a sua turbulenta vida pessoal foi descoberta pelos media. Durante um tour em Inglaterra, a imprensa descobriu que a esposa da estrela era a sua prima em 2º grau, Myra, com apenas 13 anos de idade. O escândalo que se sucedeu forçou a que o resto da tour fosse cancelada.

O regresso a casa não se revelou menos penoso. Os seus discos foram banidos das rádios e Jerry praticamente não tinha propostas de concertos. Em 1958, envolveu-se numa discussão com Chuck Berry para decidir qual dos dois encerrava um concerto. A organização optou pelo segundo artista, mas Lewis, durante o seu próprio espetáculo, incendiou o piano em palco, impossibilitando a atuação de Berry.

gq.com

Com alguns lançamentos e leves sucessos pela década fora, Jerry nunca mais conseguiria alcançar o nível de fama e estrelato que tinha antes deste escândalo. Marcado por problemas com álcool e drogas depois de se separar de Myra, as tragédias pareciam ter um gosto peculiar pelo cantor. O filho, com 19 anos, morreu num acidente de carro, em 1973. No início da década também já teria perdido o primeiro filho, que se afogou numa piscina. O próprio comportamento irresponsável de Lewis fez com que fosse internado depois de quase morrer de uma úlcera.

A quarta esposa morreu, também afogada numa piscina, sob circunstâncias suspeitas. Pouco mais de um ano passou e a esposa seguinte foi encontrada morta – overdose de metadona. Com uma vida repleta de drogas e vícios, Jerry decidiu recuperar na clínica Betty Ford.

Mas os desastres e controvérsias não acabaram por aqui. No seu 41º aniversário baleou acidentalmente o baxisita Butch Owens na barriga, que sobreviveu milagrosamente. Poucas semanas depois, Lewis foi detido por um incidente com armas, desta vez na mansão de Elvis Presley. Apesar de ser convidado por um dos maiores ícones da história da música, os seguranças não sabiam da visita. Quando foi questionado sob o que Jerry fazia ali, Lewis mostrou a arma que tinha aos seguranças e disse, jocosamente, que estava ali para matar o Elvis.

A aproximar-se da meia idade, a chama incansável e escaldante do “Matador” parecia estar a apagar-se. Mas a década de 80 deparou-se com um regresso ao estrelato de Lewis. Um filme intitulado de Great Balls Of Fire estava a ser feito, uma biografia da vida do artista, e Lewis foi chamado para cantar as músicas no soundtrack. Com um coração ainda repleto de emoção e uma fome pela música, Jerry Lee Lewis mostrou a toda a gente quem o verdadeiro Killer era, soando tão energético como se fosse 1957 outra vez.

Apesar dos problemas pessoais, o talento e poderio musical de Jerry Lee Lewis nunca foram questionados. Com uma voz poderosa e uma técnica irreplicável ao piano, foi descrito como o melhor artista “cru” da história da música rock. Em 1986, foi induzido no Rock and Roll Hall of Fame, tornando-se num dos primeiros artistas a receber essa honra.

Há alguma estrela do rock’n’roll que tenha uma reputação mais frenética que a de Jerry Lee (O Matador) Lewis? A sua proeza como um “maluco” do piano, um egocêntrico sem trela em conjunto com uma sede sem fim por viver ao máximo deram origem a inúmeras biografias, documentários e um filme de Hollywood. Sem dúvida, muitos poucos artistas surgiram com maior ego e talento que o próprio – e viveram para contar a história.