Conhecido por, entre muitos outros grandes feitos dos quais já falaremos, figurar em praticamente todas as listas publicadas de melhores guitarristas da história, Johnny Allen Hendrix afirmou-se como um dos grandes músicos da sua época. Marcou, através do seu percurso musical, vários géneros que ainda hoje bebem das suas influências.

Mas, muito antes de hipnotizar as multidões do Woodstock e do Isle of Wight Festival com performances de guitarra que mais pareciam uma alucinação coletiva do que algo humanamente exequível, Hendrix era um jovem rapaz de Seattle que se ocupava do seu irmão mais novo. Ao mesmo tempo trabalhava com o pai numa sucata e segundo alguns relatos os primeiros passos na música surgiram aos 15 anos, depois de encontrar um ukulele com apenas uma corda nesse mesmo local.

Nos quatro anos que se seguiram, as autoridades apanharam Jimmy a conduzir carros roubados duas vezes. Confrontado com a escolha entre o exército e a prisão, Jimmy alistou-se em 1961, servindo enquanto paraquedista durante aproximadamente um ano. Durante esse tempo, deu concertos em vários dos locais de descontração da base militar acompanhado pelo baixo de Billy Cox, que na altura cumpria também serviço militar na base de Fort Campbell, em Kentucky. Depois de várias repreensões por dormir em serviço, entre várias outras demonstrações de desinteresse pela função militar, Hendrix recebeu uma dispensa honrosa, podendo assim perseguir a sua vocação musical a tempo inteiro.

Acompanhado pelo seu colega de serviço e baixista, Billy Cox, Hendrix ganhava a vida pouco depois da sua dispensa a tocar em cafés e bares em Clarksville, no Tennessee. Foi aliás aí que aprendeu a tocar com os dentes, ascendendo rapidamente à Jefferson Street, coração da comunidade afro-americana que contava com uma próspera cena de R&B.

Mais tarde, em Janeiro de 1964, Hendrix decidiu aventurar-se a solo pelo Harlem, onde conheceu e mais tarde namorou com Lithofayne Pridgon, que, sendo natural da zona, o ajudou a enquadrar-se na cena musical da área. Dois meses depois, grava o single de duas partes “Testify”, com os Isley Brothers, com quem fez tournées durante boa parte desse ano até sair da banda. Depois de uma série de colaborações menos conhecidas com músicos como Little Richard e Rosa Lee Brooks, Hendrix forma a sua própria banda, Jimmy James and the Blue Flames, e começa a aperfeiçoar o estilo musical que viria a usar na sua segunda banda, The Jimi Hendrix Experience.

Apesar deste diverso percurso musical nos Estados Unidos, o sucesso inicial de Hendrix inicia-se depois de se mudar para Londres, com uma impressionante performance espontânea no The Scotch of St. James em Londres. A partir daí, foi performance atrás de performance pela Europa toda num estilo que o próprio descreve como “Free Feeling”, uma combinação de Rock, Freak-Out, Rave e Blues. Esta junção atingiu proporções musicais quase mitológicas que originaram nos anos seguintes músicas como “Purple Haze” e The Wind Cries Mary”. Durante este período de loucura psicadélica e frenesim mediático, queimaram-se guitarras em palco, fãs foram dispersados pelas autoridades entre muitas outras peripécias que culminariam no álbum Are You Experienced, depois do sucesso inicial de “Hey Joe” e de “Purple Haze”.

A última performance de The Jimi Hendrix Experience deu-se em 29 de Junho de 1969 e ficou marcada pelo uso de gás lacrimogéneo por parte da polícia de forma a dispersar a multidão. Poucos meses depois da dissolução da banda, Jimi Hendrix, na altura o mais bem-pago músico de Rock do mundo, viria a encabeçar o cartaz do Woodstock, marcando o festival com uma performance altamente distorcida do hino nacional dos Estados Unidos.

Mas, como muitos dos mais conhecidos artistas daquela época, Hendrix viveu o sucesso astronómico da sua obra com consequências devastadoras. O ambiente da revolução hippie era muito favorável à ingestão inconsequente de quantidades de ácido lisérgico suficiente para alucinar pequenas aldeias. Não obstante, o abuso de substâncias pelo artista, em particular quando misturadas com elevadas doses de álcool, levaram por vezes ao despertar de um lado obscuro e violento de Hendrix que quase nunca surgia noutros contextos, segundo relatos da sua amiga Sharon Lawrence. Estes surtos raivosos deram muitas vezes lugar a agressões, notavelmente as feitas ao amigo Paul Caruso e à namorada, Carmen Borrero, no ano anterior ao da sua morte.

Coincidência ou não foi precisamente a combinação de álcool e soporíferos que matou Hendrix, segundo uma autópsia feita pelo Professor Robert Donald Teare. A lenda do “free spirit” padece assim de uma morte prematura com apenas 27 anos de idade, o “número maldito” que marcou a idade mortuária de artistas musicais como Jim Morrison, Janis Joplin, Amy Winehouse, entre vários outros.

Não obstante um percurso explosivamente criativo e avassaladoramente atribulado, Hendrix conseguiu imortalizar-se surgindo praticamente do nada através duma extensa obra musical, marcando as mais profundas raízes do Rock Psicadélico e da música Moderna no geral. Esta sexta-feira assinala-se o 50º aniversário da sua morte mas a alma de Hendrix continua viva um pouco por todo o lado onde se façam ouvir os sons distorcidos dos pedais de “wah-wah” e dos amplificadores carregados de feedback que tanto marcaram a sua curta mas prolífica estadia no mundo da música e dos seres vivos.