Popularizou a música Reggae e, há quem diga, deu o nome ao género musical. Toots Hibbert, conhecido como o “pai do Reggae”, deliciou os ouvintes desde 1960. Esta sexta-feira, dia 11 de setembro, deixou-nos, mas o seu legado para sempre permanecerá.

Frederick Nathaniel Hibbert nasceu a 8 de dezembro de 1942 na Jamaica. O filho mais novo de oito irmãos ficou órfão apenas com 11 anos de idade. A lenda cresceu ao som do Gospel, dando o seu primeiro contributo ao coro da igreja. Com apenas 20 anos, enquanto trabalhava como um barbeiro local, foi descoberto. Da parte de fora da barbearia, foi ouvido por Ralphus “Raleigh” Gordon and Nathaniel “Jerry” Matthias. Mais tarde, foi com eles que criou o trio The Maytals.

Nos anos 60, The Maytals eram um dos grupos mais populares na Jamaica, chegando a vencer, por três vezes, o Popular Song Competition do país. As nomeações deveram-se a “Bam Bam” (1966), “Sweet and Dandy” (1969) e “Pomps & Pride” (1972).  “Bam Bam” correspondeu ainda à primeira música vencedora do concurso.

Apesar de Toots Hibbert não ter escrito uma dissertação sobre a obra, acredita-se que a música pretende transmitir um estágio de tranquilidade, de liberdade. Uma liberdade que sendo posta em causa, não será tomada sem qualquer luta. Desta forma, ao longo de cerca de três minutos, podemos ouvir “Help this man, don’t trouble no man / But if you trouble that man it will bring a bam bam”.

Mais tarde e até aos dias de hoje, “Bam Bam” serve de inspiração e fez parte de outras músicas como “Bam Bam” de Sister Nancy (1982), “Bum Bum” de Kat DeLuna feat Trey Songz (2015), “Roze (Mijn Lievelingskleur)” de Oom Dano (2018) e “Too Hot” de Jason Derulo (2019).

Sweet and Dandy“, pertencente ao álbum com o mesmo nome, foi produzida nos Dynamic Sounds Studios e conta a história de um novo casamento. Aquele que poderia ser o resumo do turbilhão de sentimentos com a proximidade do evento.

As personagens principais são Johnson e Etty. Enquanto os convidados se preparam para festejar, o nervosismo dos noivos e o apoio familiar é evidente:  “Etty in the room a cry / Mama say she must wipe her eye / Papa say she no fi foolish” e “Johnson in the room afret / Uncle say he must hold up him head”. Felizmente, tudo corre bem, “it’s a perfect pander”.

Se não fosse produzida três anos depois, “Pomps & Pride” seria uma música perfeita para animar os convidados de tal matrimónio. A música ficou conhecida como um hino da felicidade. Desta forma, deixemo-nos de tristezas, “Everybody just / Cryin out (cry out)”, e agarremo-nos a algo para que possamos ser felizes, “Calm down (calm down) / Have your pomps and pride”.

Um casamento feliz e uma mensagem de esperança, mas nem tudo na vida do artista foi alegre. Em 1966, Hibbert foi preso pela posse de marijuana. No entanto, agarrou-se à oportunidade e aproveitou a experiência para produzir “54-46 That’s My Number“.

Como seria de esperar, na sua visita o artista ficou marcado com o número 54-46. Por entre questionamentos sobre o que levou à sua apreensão (“Do you believe I would take such a thing with me / And give it to a police man?”), Hibbert deixa transparecer algumas críticas ao sistema prisional, “right now, someone else has that number”.

Dois anos mais tarde, Frederick Nathaniel Hibbert conquistou mais uma proeza sendo um dos primeiros artistas a empregar a terminologia “Reggae”, com “Do the Reggay”. No entanto, quando questionado sobre tal facto, o artista referiu “as pessoas dizem-me isso, mas quando o fiz (usei o termo), eu não sabia. Havia já esse beat na Jamaica, o Reggae era tocado muito antes de eu o começar a cantar”.

Para além disso, explicou que o termo era uma gíria, “uma espécie de apelido para alguém que não se vestia bem – por exemplo, se andasses descalço, as pessoas chamavam-te “streggae””. O artista acrescentou ainda que “numa terça-feira de manhã, decidimos “fazer um pouco de Reggae””. Inicialmente, “ninguém quis saber, até que começou a espalhar-se pelo mundo”. Desta forma, agradeceu a Deus por ter feito algo bom, mesmo que de forma não planeada.

Apesar do sucesso já alcançado, foi apenas em 1970 que Toots and the Maytals, originalmente conhecidos por The Maytals, lançaram o seu primeiro álbum. Ao longo de 8 músicas, Funky Kingston explora as dificuldades da classe trabalhadora, como é viver na Jamaica e como aprender a celebrar a vida apesar das adversidades.

A grande maioria das músicas foram escritas por Toots Hibbert, no entanto, o álbum contou também com a participação de Richard Berry (“Louie, Louie“), Ike Turner (“I Can’t Believe“) e o trio Shep and the Limelites, composto por James Sheppard, Clarence Bassett e Charles Baskerville (“Daddy’s Home“).

De Funky Kingston destaco a “Redemption song”. Ao longo da música, o artista reflete sobre a fé e, mais uma vez, a necessidade de nos agarramos a algo. Neste caso, Toots Hibbert aparenta referir-se à religião, daí reforçar “I got to pray with all my heart / While I sing redemption songs”. Adiante, o artista refere “It’s just the word / That God speakest from my mouth / That hurts your heart”.

Curiosamente, em 1980, Bob Marley & The Wailers lançaram uma música com o mesmo nome. “Redemption Song” de Bob Marley explora a nossa capacidade de libertação, “Emancipate yourselves from mental slavery / None but ourselves can free our minds”. Relembre-se que a carreira do artista com Bob Marley & The Wailers cresceu paralelamente à carreira de Toots Hibbert, nos Toots & The Maytals.

Mais tarde, os Toots & The Maytals lançaram um álbum diferente, mas com o mesmo nome e a mesma capa. Este novo álbum alcançou a 164ª posição na Billboard 200 e foi eleito o 11º melhor álbum de 1975 na sondagem anual Pazz & Jop. Desta vez, o álbum contou com 10 singles, incluindo “Funky Kingston“, “Louie, Louie” e “Pomp and Pride“.

Ainda na década de 70, Hibbert participou no filme The Harder They Come (1972), um filme conhecido pelo seu soundtrack de Reggae. Por entre os mais variados artistas do género, o filme contou com “Pressure Drop” e “Sweet and Dandy” dos Toots & The Maytals.

Durante anos, Hibbert continuou a lançar músicas, quer a solo, quer lado a lado da sua banda. Em 2005, a banda conquistou o Grammy Award for Best Reggae Album, com True Love. Por sua vez, Hibbert ficou no 71º lugar na lista 100 Greatest Singers of All Time da revista Rolling Stone, em 2010. Um ano mais tarde, recebeu a Ordem da Jamaica.

Após a realização de variadas colaborações, Hibbert participu ainda no documentário Toots and the Maytals: Reggae Got Soul (2011). O filme é descrito como “a história desconhecida de um dos artistas mais influentes da Jamaica” e conta com a aparição de Marcia Griffiths, Jimmy Cliff, Bonnie Raitt e Eric Clapton.

Aos 77 anos, Toots Hibbert deixa-nos com uma panóplia de canções e uma discografia mais do que completa. Agora, resta-nos celebrar a sua morte e qual será a melhor forma do que “Do the Reggay”.