Quatro anos após o lançamento do sexto álbum de estúdio HERE, a rainha do R&B está de regresso com o autointitulado ALICIA, o projeto mais pessoal e de carácter mais sociopolítico de Alicia Keys. O novo álbum é constituído por 15 faixas simultaneamente agradáveis e impactantes, que prometem divertir e emocionar os ouvintes.

Inspirado no mais recente livro “More Myself: A Journey”, ALICIA explora a jornada pessoal da cantora nova-iorquina e oferece, ainda, temas de extrema importância social. O lançamento estava inicialmente previsto para março, mas foi adiado duas vezes devido à COVID-19. A pandemia não impediu, contudo, que Alicia Keys nos mantivesse a par do que estava por vir. Desde “Show Me Love”, “Underdog” e “So Done”, a artista foi lançando vários singles que mantiveram aceso o entusiamo entre os fãs.

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A primeira faixa, “Truth Without Love“, de lírica tempestuosa, fala sobre o vazio de qualquer vida, amor ou arte que não se conecta a um senso de empatia mais amplo e profundo. Tal sentimento assenta-lhe que nem uma luva, já que sempre se mostrou acessível e de uma seriedade descontraída.

Com a colaboração de produtores como Mark Ronson, Tricky Stewart e Swizz Beatz, ALICIA possui uma sonoridade vasta e envolvente. Isto permite que, enquanto vocalista, se mova facilmente entre géneros musicais: desde as influências disco em “Time Machine“, ao R&B temperamental em “Me x 7” e, ainda, reggae em “Wasted Energy“.

Existem algumas faixas de destaque no álbum, entre elas “Gramercy Park”. O tema combina folk, soul e gospel, enquanto Alicia Keys reflete sobre o esforço permanente para corresponder às expectativas dos outros.

Outro tema que sobressai é “3 Hour Drive”, que conta com a colaboração do músico inglês Sampha. Contudo, é “You Save Me”, com Snoh ​​Aalegra, que mais prende a minha atenção. A performance vocal de ambas é extraordinariamente envolvente e arrepiante. Sendo Snoh ​​a mais recente ascensão feminina do R&B, não é surpreendente que este encontro se tenha relevado mágico.

As canções que se relacionam com questões maiores são previsivelmente edificantes. Em “Underdog“, Keys elogia professores e estudantes, mas mostra, também, o seu apoio pelos mais necessitados (“So I sing a song for the hustlers trading at the bus stop / Single mothers waiting on a check to come”). Assim, tenta aproximar realidades muito distintas, através de uma melodia alegre que nos enche de esperança por um mundo melhor.

Poucos artistas conseguiriam escrever um tema intitulado “Authors of Forever” sem que este soasse algo pretensioso. Alicia fê-lo de forma singular (“We’re all in this boat together / And we’re sailin’ toward the future and it’s alright”) mantendo a sonoridade característica do R&B.

Mais poderoso ainda é o tema “Perfect Way To Die”, uma balada intemporal, escrita na perspetiva de uma mãe em luto pelo filho injustamente morto pela polícia.  Ao cantar “just another one gone / And they tell her to move on”, Keys condena a resposta inadequada dos EUA à brutalidade policial.

Os hinos ao piano continuam a ser o “cartão de visitas” da artista e ALICIA termina com um dos mais impactantes da sua carreira. “Good Job” é dedicado a todos aqueles que trabalham arduamente para ultrapassar os obstáculos de um mundo cada vez mais injusto e egoísta.

De uma forma mais direta, Keys dirige-se aos médicos e enfermeiros da linha da frente que tentam travar esta pandemia, “The world needs you now / Know that you matter”. É um momento extremamente comovente, entregue com um sentimento genuíno de preocupação.

Por fim, considero ALICIA a banda sonora perfeita para o ano de 2020. Encerra em si momentos de introspeção, autoconhecimento e reflexão acerca dos problemas urgentes que assombram as nossas sociedades, sempre com uma mensagem de esperança e de união. É um álbum necessário, com o poder de ajudar a curar algumas das nossas maiores feridas e pelo qual valeu a pena esperar.