Primitive Man é uma banda americana de doom metal, conhecida por um som catártico, aterrorizador e que faz tremer as orelhas dos mais ávidos ouvintes de metal. Numa conjugação de sludge, noise e funeral doom, o trio deixou para trás um legado de sangue e colocou uma pergunta no ar: como é que vão dar seguimento após tanta brutalidade sonora?

Não é por nada que o penúltimo álbum, Caustic, se tornou instantaneamente num dos marcos musicais mais memoráveis (e pesados) da última década. O trio traz ao de cima o lado mais negro da humanidade e o ancorado niilismo omnipresente, através de vocais grotescos, guitarras distorcidas e uma bateria atonelada. Esta agressão rasteja paralelamente com a lentidão clássica do género.

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Immersion adota uma abordagem mais “leve e confortável”. Leve no sentido em que perdura durante 35 minutos – metade da duração de Caustic, com 77 – e conta com apenas 6 músicas. Com uma menor quantidade de material, Primitive Man tem uma escassa margem para erro.

Em termos gerais, a lírica e performance assenta-se mais em riffs e não tanto no noise e nos elementos de drone com os quais a banda causou o impacto que causou. Immersion é um projeto mais concreto e compacto, dentro do género em que se encontra.

Sim, o obscuro e o atormentador são fundamentos do álbum, contudo encontram-se mais “relaxados”, infelizmente. O mais próximo que temos aqui da pura brutalidade de Caustic é o interlúdio “”: uma absurda parede de ruído, composta inteiramente por barulhos de estática e por remoinhos de feedback. O sentimento que esta faixa causa é algo que eu gostaria que estivesse mais presente no resto do projeto.

A banda está, definitivamente, a seguir uma abordagem mais segura, dentro daquilo que já criaram. Mesmo assim, Primitive Man entrega um dos registos mais hostis de 2020, com uma série de highlights à mistura.

A produção deste LP é mais opressora e esmagadora: conseguimos, no meio do constante tormento sonoro destacar os elementos que intervêm no álbum. A faixa que abre os portões do Inferno que é Immersion, “The Lifer”, é primitiva, lenta e dramática.

O baixo estrondoso, a distorção hipnótica, a bateria imponente e o feedback que furou os meus tímpanos… foi amor à primeira audição. Todos os sons estão incrivelmente ressonantes e destacados. O que me fez apreciar a faixa ainda mais foi a brilhante transição do riff principal, que nos atormenta lentamente durante 6 minutos, para algo mais na vertente do black metal.

Menacing” é o terceiro tema e faz jus ao nome. Sem dúvida, um dos momentos mais intimidantes e caóticos do álbum. A música arranca logo com os infames e desorientadores blast beats e o clássico tremolo picking na guitarra. Mais uma vez, vemos a banda a aumentar o poderio sonoro, com mais volume e camadas de som.

Com a carga de porrada instrumental que não cessa durante os 8 minutos que a faixa tem, é de notar a forma como o vocalista Ethan McCarthy consegue impor-se com os grunhidos impetuosos. Os gritos transmitem letras repletas de niilismo e maestra com eles os instrumentais à sua volta. Há tanto desespero a cada momento, sentimo-nos presos numa espécie de labirinto de ansiedade sem saída.

Apesar de ser a faixa mais longa do álbum, honestamente, não notei que fosse. “Menacing” consegue sugar-nos para este mundo hostil e caótico através das excelentes transições instrumentais.

Um outro ponto alto de Immersion, foi a faixa final, “Consumption” que se mantém no mesmo nível de “Menacing”. Temos, logo de início, riffs e batidas lentas e aniquiladores que se envolvem num casamento infernal, transformando-se numa passagem cavernosa e esmagadora. Selvagem, primitivo e constante na execução, Primitive Man empurra-nos para este buraco sem fundo até ao último segundo.

Contudo, houve certos momentos não tão interessantes neste projeto. A música “Entity” começa com uma bela intro de 2 minutos de apenas tremolo picking afiados como tudo, criando uma ansiedade no ouvinte pelo que irá sair dali. De seguida, há a excelente transição para a bateria e os vocais de Ethan. Mas, quando chegamos a este auge da música, esta não se desenvolve muito mais durante os 3 minutos que restam.

Em adição, a faixa “Foul” é, sem dúvida, a que menos me interessou em Immersion. A música é repetitiva e sem muita dimensão para além daquilo que nos é apresentado no início. Repetição e desinteresse numa música com 7 minutos é algo grave, especialmente quando uma pessoa tem de reouvir um álbum várias vezes para formar uma opinião argumentada. Apesar de um bom começo, com a guitarra devastadora de Joe Linden, o resto da música fica bolorenta, sem inspiração e deixa-nos à espera de mais.

Tendo tudo em conta, saí deste álbum desiludido, em termos de material e em termos de evolução do som de Primitive Man. Immersion surge como um projeto mais compacto, direto e focado em riffs do que Caustic.

Apesar disso e das duas músicas que não me chamaram muito à atenção, o trio continua a ser uma das bandas que mais de destacam no mundo do sludge e do doom. Para além disso, as melhores faixas deste projeto são das melhores no estilo que ouvi até hoje. Mas não foram suficientes para eu acabar este álbum e sentir-me devidamente satisfeito.