Depois das luzes do sucesso de My Women, em 2016, a cantora-compositora Angel Olsen despediu-se do verão com uma nova abordagem a All Mirrors, o álbum Whole New Mess. De coração partido, invoca uma atmosfera catártica pautada pela acústica de um estúdio na pequena cidade de Anacortes, em Washington.

Whole New Mess chega até nós como o rascunho de All Mirrors. O primeiro contempla nove das faixas do segundo num registo por polir, embebido num melodrama amargurado pós-fim-de-namoro. O ritual é emocional e olha atentamente sobre o íntimo em tumulto de Olsen.

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Numa dimensão em que a guitarra se demora, a voz de Olsen ecoa em suspiro. A faixa-título do álbum principia a jornada até ao terminar de um ciclo para mostrar que o fim também é o início. “When it all fades to black”, a noite faz-se escura e riffs cansados acompanham a melancolia do canto. É uma canção moribunda que, em vez de morrer, desenha o vazio em ondas sonoras.

Too Easy (Bigger Than Us)” canta uma ode à credulidade ingénua dos apaixonados. Combina vibrações sintéticas e ondulantes, uma voz rasgada e cheia de reverb com os riffs acústicos simplistas- presentes por todo o álbum para continuar a lamúria confessada em Whole New Mess.

Seja na “(We Are All Mirrors)”,Waving, Smiling” ou “(New Love) Cassette”, o tecido deste manto de retalhos sónicos traz rasgos de um delírio emocional, num tom que se arrasta e assombra a cada reverb. No confrontar da solitude, “Tonight (Without You)”, a voz colossal de Olsen faz-se esbatida, tornando dúbias as arestas de todas as palavras que recita.

Em “(Summer Song)”, num entardecer que se desfaz, os dias de verão pintam-se com uma nostalgia que corrompe e enfraquece a memória. O onírico leva a melhor: “And all those summer days were like a dream / Woke me from a restless sleep”. A guitarra conjura a névoa dos cânticos que embalam e nos levam a pairar sobre um sono profundo – como que em estado de sonho lúcido.

Lark Song” preenche todos os requisitos do clichê, para melhor ou pior. No rescaldo de uma colisão de rotas que divergiram, os contornos do corpo perdem-se na aguarela de uma cidade agora pouco familiar. “This city’s changed, It’s not what it was back when you loved me”. De volta à tona, a dor de Angel Olsen reverbera dentro e para fora de si pelas linhas da memória.

De acordo com o dicionário, um “Impasse” é uma situação da qual parece não haver saída possível, um impedimento, e é mesmo esse o quadro que esta canção pinta. Num toque quase iluminista de emoção que arrasta e se exalta, Angel entoa com pesar, “I’m just livin’ in my head / I never lost anyone”.

Em “Chance”, a melodia sobe e flutua num embalo em tom de lullaby. A procurar alento na improbabilidade e numa realidade contada em sonhos, a cantora recita “All that space in between where we stand / Could be our chance”.

A lírica de Angel Olsen vem mexer, deitar sal e passar álcool na ferida, ao som de uma tristeza melódica que arde ao longe e se quer extinguir, mas que nunca deixa de doer. São 11 confissões que encontram agora a dimensão mais crua, com a verdade entoada e repetida minuciosamente consoante o latejar do desamor. Os instrumentais suplicam que a voz continue, como se não existissem sem ela, e a música prende-se com a entrega de Olsen.